Com algumas contradições, projeto do capital sai vitorioso nas eleições

Quais critérios utilizamos para um balanço eleitoral?

Um balanço do processo eleitoral de 2020 – uma forma distorcida de expressão da realidade- deve começar por identificar o nível de consciência que a classe trabalhadora expressou nas eleições. O resultado eleitoral é um retrato de qual caminho, ainda que equivocadamente, a classe trabalhadora apoia. Muitos, para justificar suas posições, analisam esse processo a partir de uma determinada particularidade da realidade. Mas, é desnecessário dizer a importância do método marxista em ver o processo como um todo.

E outra questão importante é entender qual classe social (os partidos expressam as ideias das classes) sai fortalecida, pois sua vitória eleitoral pode demonstrar ou poderá dar força ao seu projeto político. A eleição de Bolsonaro, por exemplo, demonstrou o fortalecimento da extrema-direita na cena política, quando a burguesia se aproveitou dessa situação e acelerou a aprovação de várias medidas contra a classe trabalhadora.

As contradições do processo eleitoral

As grandes decisões políticas e econômicas não ocorrem no parlamento. Quem as decide são os grandes empresários industriais, o sistema financeiro e comerciantes. Aos parlamentares cabe somente a forma de aplicar as medidas. Quando ouvimos um parlamentar falar que o mercado precisa das Reformas para investir (ou seja, especular e ganhar dinheiro) está dizendo que vai fazer o que o seu chefe mandou.

O poder econômico é quem consegue eleger a maioria dos candidatos e com isso a burguesia sempre tem a maioria nos parlamentos. É a lógica da política institucional. Os representantes da classe trabalhadora (quando existem) só podem denunciar e nada mais.

Mesmo com os problemas e os limites, as eleições tem ocorrido independente da vontade de revolucionários e da participação ou não na disputa da atenção da classe trabalhadora, o que mantém o caminho livre para a burguesia propagar sua política e suas mentiras.

No entanto, mostrar que existe outro projeto de mundo e que – não passa por eleger parlamentares para reformas lentas e graduais do sistema – a vida da classe trabalhadora só vai mudar, de fato, com o fim da exploração e dos exploradores têm ficado cada vez mais distante da agitação e das denúncias do processo eleitoral.

Bolsonarismo e extrema-direita derrotada?

Analistas burgueses se esforçam em demonstrar a derrota do “bolsonarismo” e da extrema-direita. É verdade que muitos de seus candidatos não foram eleitos, mas, isso não significa necessariamente uma derrota.

Os partidos e candidatos deliberadamente da extrema-direita tiveram votações expressivas. Em São Paulo, juntando as votações de Russomano, Arthur do Val e Joice somaram mais de 20% dos votos, uma força política importante.

Não podemos analisar o peso da extrema-direita na realidade somente pelas eleições, também é importante avaliar a força dessas ideias na sociedade. No nosso modo de ver, continuam influenciando uma parcela importante da população, inclusive nas periferias do país.

Por isso, a denúncia e o combate a essas ideias devem ocorrer e também para além das eleições. É uma batalha política-ideológica que a esquerda deve incorporar à sua prática cotidiana, mostrar à classe trabalhadora o quanto essas ideias favorecem os nossos inimigos de classe.

Nesse sentido, impulsionar as lutas pelas reivindicações de classe é fundamental, pois é nesse campo que ficará mais explicito o papel da extrema-direita.

Fortalecida a direita “clássica”

O esforço da mídia em apresentar os partidos vitoriosos como “direita civilizada” ou de centro-direita não passa de uma tentativa de desviar a atenção do que é central: são partidos que ou são da base parlamentar de Bolsonaro ou, quando de oposição política, apoiam o projeto econômico em andamento (privatização, reformas, etc).

As críticas desses partidos ao Bolsonaro são superficiais, uma “oposição faz-de-conta”, não querem aparecer ao seu lado, mas não se opõem de verdade às propostas de seu governo.

DEM, PSDB, Republicanos, PSD, MDB, dentre outros são partidos de direita. Diferem de Bolsonaro somente no jeito e na forma de fazer política, mas apoiam a política econômica e fazem parte da bancada governista na Câmara e no Senado. Diante de qualquer ameaça, se unem.

Em 2018 todos se juntaram em torno de Bolsonaro, agora, em São Paulo, apoiam Covas e o apoio de Russomano é um bom exemplo de como atuam os partidos da direita.

Os eleitos por esses partidos defendem a mesma política econômica de Bolsonaro (aprovação da Reforma Administrativa, pagamento da dívida pública, privatização de serviços públicos, etc.). Certamente vão usar suas vitórias para tentar impor mais medidas contra a classe trabalhadora nos municípios e em nível nacional.

Com uma votação mais distribuída, juntos os 10 principais partidos dessa direita “clássica” elegeram prefeitos em mais de 4 mil cidades (TSE), constituindo importante base de apoio nas cidades. No estado de São Paulo, por exemplo, o PSDB elegeu a maioria das prefeituras, situação que fortalece o governo Dória e suas pretensões eleitorais.

Esse setor também sai fortalecido para as eleições de 2022. Com o desgaste de Bolsonaro e a burguesia já construindo outros nomes – articulações entre Huck (o da Globo), Sérgio Moro e Dória (e com apoio de vários empresários) – conseguem uma importante base de apoio.

O identitarismo e as questões de classe

Um fenômeno nesse processo foi a eleição de uma bancada significativa de negros, LGBT+’s e mulheres. Um importante espaço conquistado por uma população historicamente excluída. Mas, muitas dessas candidaturas se mantiveram na questão de identidade desconectada da questão de classe social.

Algumas eram de partidos burgueses, mas, o problema fica maior quando até mesmo candidaturas de partidos de esquerda se mantiveram nesse limite, ou seja, como mulher, negras ou negros, população LGBT+ e não se identificavam como parte da classe trabalhadora.

Não desqualificamos a identidade, pelo contrário, numa sociedade marcada por uma brutal opressão e exploração, esse reconhecimento é importante, mas, insuficiente para elucidar as razões dessas discriminações para a exploração capitalista sobre a classe trabalhadora. E também entendemos as dificuldades de abrir espaços mesmo em partidos de esquerda, pois muitas vezes é reproduzido o padrão cis-branco-hetero-macho.

Não é uma questão menor, principalmente no momento em que o capital tem capturado essa pauta a partir de um viés liberal e até reacionário. Kamala Harris (vice-presidente eleita nos Estados Unidos), por exemplo, é mulher e negra, mas suas posições políticas são contra a classe trabalhadora mundial.

E um exemplo brasileiro de como a pauta identitária, “descolada de classe social”, é fácil de ser capturada pelos liberais é Fernando Holiday, do MBL e vereador de São Paulo, totalmente “colado” ao projeto político da burguesia e tendo votado em todas as medidas de retirada de direitos de trabalhadores, inclusive do funcionalismo público municipal.

Em São Paulo Boulos: ao lado dos pobres e “paz e amor” com os ricos

Foi Boulos quem ocupou o espaço deixado pelo PT na capital paulista. Com 20% dos votos chegou ao segundo turno contra Covas do PSDB e colocou o PSOL em outro patamar.

O entusiasmo da militância do partido é grande e justo. Mas, há questões importantes que merecem reflexão. A campanha colocou em segundo plano as questões nacionais, como o Fora Bolsonaro, e também não apresentou propostas para enfrentar a crise econômica sob uma perspectiva da classe trabalhadora.

Ao se colocar como o melhor administrador para a cidade, além de fugir das questões centrais da luta de classes, também dá um tiro no pé, pois nem a “melhor gestão” municipal vai resolver a crise econômica e social da cidade.

Isso significa pagar os empresários de ônibus ou garantir a qualidade do transporte; pagar para as lucrativas OS’s ou ampliar a Saúde pública, pagar a dívida pública ou revogar a Reforma da Previdência municipal aprovada por Covas. A escolha é sempre em gerenciar a crise ou construir a ruptura dessa lógica de gestão do capital. Essa lógica seguirá no segundo turno.

E para ampliar o eleitorado tem se mostrado como “light”, dizendo que vai governar para todos (o que significa incluir os ricos), que não vai demonizar a propriedade privada, que não defende a reestatização do transporte público (vai mudar a forma de remuneração das empresas para o quilômetro rodado, hoje é por passageiro transportado), ou seja, uma gestão “aceitável por todos”.

É preciso mudar essa lógica. Chamar a classe trabalhadora a se organizar em um programa que atenda as demandas dos pobres. São Paulo é a principal cidade do país, tem um proletariado poderoso e se mobilizado pode ser referência para obrigar os ricos a pagarem pela crise, pois foram eles que a causaram.

Bruno Covas e o PSDB: parte do pior em São Paulo

O PSDB governa o estado de São Paulo há 25 anos. Durante esse período destruiu a Educação pública, aumentou a repressão policial contra os movimentos sociais e os pobres, congelou os salários do funcionalismo público, retirou programas sociais como o Leve Leite, desviou verbas da merenda escolar que servia a estudantes pobres. Também está envolvido (e protegido pelo Judiciário) em outros casos de corrupção como na construção do Rodoanel e do Metrô, desviando milhões de reais.

Na capital, Bruno Covas fez a mesma coisa. Colocou a Polícia Militar e a GCM para atacarem e tirarem sangue de Professores que lutavam contra o confisco dos salários, protege as empresas de ônibus que sequer cumprem os contratos, deixa hospitais desativados, exatamente quando são mais necessários, para combater a epidemia.

Como dissemos, no plano nacional o PSDB está comprometido com as medidas de Bolsonaro e Paulo Gudes. Esse partido votou em todas as Reformas contra os trabalhadores e é um dos fiéis defensores dos ajustes econômico contra a classe trabalhadora.

Foto de Covas, Dória, Bolsonaro e militar Eduardo Ramos
Foto de Covas, Dória, Bolsonaro e o militar Eduardo Ramos

Em São Paulo, votar contra Covas e a extrema-direita

A vitória do PSDB e do Covas será o aprofundamento do projeto e a continuidade dessa situação em São Paulo. Também fortalecerá a campanha de Dória em 2022. Derrotar o PSDB seria um importante golpe contra Dória, pois perderia um apoio importante para suas pretensões eleitorais.

Por ser uma representação do atual projeto político da burguesia, a maior parte da extrema-direita paulista (Russomano, Joice…) está apoiando Covas no segundo turno. Foi mais ou menos isso que ocorreu em 2018, ocasião que esses mesmos estavam apoiando Bolsonaro. Essas são mais algumas das razões para votar contra Covas e o PSDB.

No entanto, não temos ilusão na política de Boulos. Entendemos que se ganhar a tendência será de repetir o modo petista de governar, ou seja, de manter os privilégios dos ricos e algumas concessões aos programas sociais. Mas, julgamos necessário o fortalecimento das lutas e – especialmente a de Moradia que nesse momento apresenta-se representada majoritariamente por MTST/Boulos, de partidos de esquerda.