Petroleiros enfrentaram empresa, TST e direção cutista

As medidas ilegais adotadas pela Petrobrás – estendendo a jornada de trabalho sem pagar horas extras (manipulação do interstício), relógio-de-ponto longe da portaria (tempo na empresa não é pago), implantação do banco-de-horas, alteração unilateral da tabela de escalas de turno de trabalho – e a política de Bolsonaro e Guedes (desmonte da empresa com a venda de ativos e de refinarias, adoção de Preço de Paridade de Importação (PPI), ataque ao Fundo de Pensão Petros colocando em risco a aposentadoria da categoria, etc.) juntamente com as perdas de direitos na campanha salarial criaram um clima de descontentamento generalizado entre Petroleiros/as.

Com isso, a demissão de 1000 trabalhadores da Fábrica de Fertilizantes do Paraná (que é Petrobrás) foi o estopim da greve. Além do cancelamento das demissões, a categoria incluiu na pauta reivindicações como a mudança da tabela de turno, o cumprimento do Acordo Coletivo (que previa várias negociações com os sindicatos), a retomada da marcação de ponto apenas quando o trabalhador chegar na portaria e o fim da criação de “novos” horários pós-interstício.

A greve foi aprovada na maioria das bases petroleiras de todo o país e rapidamente se espalhou. Nos dois primeiros dias já haviam 6 mil grevistas e logo chegou a 21mil Petroleiros/as grevistas, sendo a maioria esmagadora de nível técnico e da produção.

FUP foca na negociação e FNP é coadjuvante

O plano da Federação Única dos Petroleiros (FUP, ligada à CUT) foi o de greve legalista para facilitar a negociação com a empresa. Parte da diretoria ocupou uma sala no prédio-sede da Petrobrás no RJ com a exigência de negociação. Enquanto isso, nos locais de trabalho, a greve seguia muito forte e com adesão voluntária (sem piquetes forçados).

Mas, por orientação da FUP, não era para parar e nem impactar a produção. Os grevistas deveriam ficar em seus postos trabalhando até serem rendidos por grupos de contingência, o que garantiria a produção normal.

Foi novamente a FUP acreditando e fazendo acreditar em conto de fadas: não afetar a produção e os lucros, manter a greve “legal” para a empresa sentar para negociar, ninguém se ferir e todos no final ficarão felizes para sempre.

Como era de se esperar, a Petrobrás não negociou e ainda pressionou com seus métodos de persuasão para fazer de reféns uma parte dos trabalhadores e fazer outra parte se vender por prêmios financeiros e furar a greve. Nem o contingente que produz a empresa aceitou negociar como deveria ser em uma greve legal, em que o sindicato solicitaria contrapartida na produção.

A Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) assume um papel secundário na greve. Não conseguiu aprovar o movimento em todas as bases e, assim, se limitou a seguir a linha da FUP. Obviamente sua adesão fortaleceu a greve com trabalhadores/as do Litoral Paulista e Rio de Janeiro, além da adesão de unidades importantes como as plataformas do Pré-sal. Mas a FNP foi apenas auxiliar na tática definida pela FUP.

A tática do inimigo

No início da greve, a Petrobrás forçou o as ações jurídicas e conseguiu apoio no Judiciário que aplicou multas milionárias aos sindicatos e exigiu o funcionamento da empresa com 90% de trabalhadores (algo que não acontece nem em dias normais!).

No dia 17/02, a empresa pressionou e Ives Gandra (com o apoio do STF), apoiando a empresa, decretou a greve ilegal. A decisão também autorizou a Petrobrás a tomar medidas contra os grevistas e contratar trabalhadores temporários para os substituir. Junto com isso, os gerentes de cada unidade ameaçavam e pressionavam os trabalhadores com telegramas e ligações.

Outra tática da empresa em conjunto com o governo e a burguesia foi o boicote da grande mídia não noticiando a greve e quando fazia era para desqualificá-la.

A FUP sendo FUP

No dia 13/02, a FUP fez um primeiro gol contra: propôs suspender a greve desde que as demissões na FAFEN e a aplicação da nova tabela de turno fossem suspensas e tivesse negociação para tratar desses e outros temas. Sabemos que depois de suspender uma greve é difícil retomá-la!

A Petrobrás não aceitou a proposta e aumentou o nível de ameaças e truculências com uma série de pressões: suspendeu férias, zerou o contracheque, contratou fura-greves (pagando R$ 45 mil por 15 dias de trabalho), usou a polícia para intimidar grevistas e o serviço de “inteligência” da patronal para aumentar as provocações (entregava convocações nos piquetes na frente da fábrica, fazia filmagens das assembleias e atividades da greve, etc.).

No dia 18/02, a FUP fez mais um gol contra. Na audiência trabalhista, no Paraná, propôs suspender a greve se a empresa suspendesse as demissões de 400 trabalhadores por 15 dias!

A Juíza, chegou a questionar o porquê de a Petrobrás não aceitar essa proposta, já que depois de 15 dias poderia demitir todos. Com a decisão de suspensão (não cancelamento) das demissões a FUP começou a desmontar a greve.

Vem o refluxo

No dia seguinte, quando um sindicato não passa firmeza para os trabalhadores/as e quando as últimas lutas tinham sido mais fracas, o refluxo tornou-se uma tendência.

Nesse dia, a FUP soltou mais um de seus vídeos (o de 2019 que recuava da greve e aceitava a perda de direitos ainda está na memória dos trabalhadores) com a orientação de suspensão da greve e para esperar a mediação que ocorreria no dia 21. Era tudo que a empresa, Bolsonaro/Paulo Guedes e a mídia burguesa queriam.

A desmoralização atingiu todas as bases da categoria e começou o esvaziamento da greve. As assembleias pelo país nos dias 20 e 21 terminaram aprovando a suspensão do movimento. Mesmo com críticas e tentativas de resistência.

Na mediação (TST, FUP e sindicatos) a FUP aceitou as demissões dos trabalhadores-diretos da FAFEN com acréscimos na rescisão, 2 anos de auxílio educacional aos filhos e plano de saúde. As reivindicações sobre a tabela de turno e sobre as arbitrariedades do RH da empresa ficaram para serem negociadas em outras reuniões (ainda sendo negociado…). Uma metade dos dias parados será descontada e a outra terá reposição. As punições aos grevistas foram canceladas.

Conclusão

Por um lado, a greve não atingiu os objetivos, portanto, não pode ser considerada vitoriosa. Por outro, os trabalhadores não saíram desmoralizados, pois não houve demissões, foi uma das maiores greves da história da categoria, conseguiu quebrar o bloqueio da mídia e, inclusive, dialogar com parte da população. Por isso a greve também não foi uma derrota.

Também conseguiu dialogar com a população, informando sobre a importância de quebrar a política de preços do petróleo e derivados (variam conforme o dólar e o preço internacional do petróleo) como forma de reduzir os preços dos combustíveis e do gás de cozinha.

Também denunciou a privatização da Petrobrás, que vai piorar essa situação. Parte desse diálogo foi o que ocorreu em muitos locais com a venda do gás de cozinha a R$ 40, um preço “justo” e mais barato para a população, que ainda dá lucro para a empresa.

No entanto, há ainda questões que precisamos refletir como o fato de fazer greve sem afetar a produção e as direções sindicais não terem construído uma campanha junto a outras categorias para apoio à essa greve. E as centrais sindicais, com várias outras categorias filiadas, se limitarem a colocar mensagens em sites e fazer discursos de solidariedade. Apesar da FUP começar bem a greve, mais uma vez, recuou no momento decisivo da luta.

Fica a lição da necessidade de construir uma direção que organize de fato as lutas e de forma consequente para fortalecer a categoria e as lutas da classe trabalhadora de conjunto.

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