A recém-criada Bancada da “Esquerda Radical”, grupo formado por parlamentares do PSOL e do PT (Sâmia Bomfim (PSOL-SP) – Deputada Federal; Glauber Braga (PSOL-RJ) – Deputado Federal; Fernanda Melchionna (PSOL-RS) – Deputada Federal; Vivi Reis (PSOL-PA) – Deputada Federal; Renato Freitas (PT-PR) – Deputado Estadual e Fábio Félix (PSOL-DF) – Deputado Distrital, além do candidato a deputado federal, em Pernambuco, Jones Manoel) oficializou o seu apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. A justificativa para essa decisão foi o combate à extrema-direita.
O manifesto lançado pela chamada Bancada da “Esquerda Radical” tem 10 eixos programáticos como: 1) Fim da autonomia do Banco Central; 2) Reestruturação do crédito e do sistema financeiro; 3) Revogação do arcabouço fiscal; 4) Reindustrialização; 5) Reestatização de empresas estratégicas; 6)Reforma agrária e defesa da soberania alimentar; 7) Tributação progressiva da renda e da riqueza; 8) Rejeição a acordos de livre-comércio assimétricos; 9) Criação da TERRABRAS; 10) Fortalecimento dos direitos trabalhistas.
Essas chamadas “pautas socialistas” seriam defendidas pela Bancada da “Esquerda Radical” no Parlamento, conjugada à atuação dos movimentos sociais. Até aí tudo bem. O que é absolutamente contraditório é o apoio da mesma Bancada ao governo neoliberal de Lula, com o intuito de derrotar o bolsonarismo nas urnas, atuando de forma coordenada em defesa do governo na disputa eleitoral do final desse ano.
Não dá para acender uma vela para Deus e outra para Satanás
A própria Bancada tem críticas frequentes ao governo de Frente Ampla, comandado por Lula. Porém, os dez pontos apresentados no seu manifesto acabam por jogar uma expectativa no governo Lula. Esse tem, só para lembrar aos “esquecidos”, pessoas vinculadas ao Mercado financeiro, como Dario Durigan (Ministro da Fazenda); Gabriel Galípolo (Presidente do Banco Central); Rogério Ceron (Secretário do Tesouro Nacional) e Simone Tebet (Ministra do Planejamento e Orçamento).
Ficam algumas perguntas: como lutar pelo fim da autonomia do Banco Central, pela reestruturação do crédito e do sistema financeiro e pela revogação do Arcabouço Fiscal se hoje o governo de Frente Ampla se coloca de joelhos diante da banca financeira nacional e internacional para o pagamento da dívida pública? Como decorrência disso, o endividamento bruto do país já superou a marca de R$ 10,6 trilhões (81,1% do Produto Interno Bruto). Portanto, a autonomia do Banco Central, a manutenção do crédito e do sistema financeiro como estão, além da permanência do Arcabouço Fiscal, criado pelo Ministro Fernando Haddad em 2023, justificam a lógica da drenagem da riqueza produzida pelo país para o pagamento da dívida pública aos bancos.
Além disso, o Arcabouço Fiscal promove um violento corte de gastos públicos na educação, saúde e saneamento básico públicos e é o pretexto para uma futura Reforma Administrativa que atacará o servidor público. Por fim, o Arcabouço não permite que exista espaço para uma política federal de investir recursos públicos para a reindustrialização do país, como foi feito em meados do século passado, com a criação da Petrobrás, da CSN e Cia do Vale do Rio Doce.
Já a política de pagamento dos juros da dívida pública pelo governo esvazia os gastos governamentais com as poucas estatais que sobreviveram, aplainando o terreno para novas privatizações, o que inviabilizaria outros dois pontos do manifesto apresentados pela Bancada da “Esquerda Radical”: a reestatização das empresas estratégicas e a criação de uma nova estatal, a TERRABRAS.
Outro ponto defendido pela Bancada da “Esquerda Radical, o fortalecimento dos direitos trabalhistas, desagrada à chamada ala econômica do governo acima citada, que prioriza o equilíbrio fiscal e a contenção de gastos públicos, sendo a voz do empresariado que teme a criação de novas obrigações e que a reversão de pontos da reforma trabalhista de 2017 possa encarecer a contratação e prejudicar o ambiente de negócios.
Governo Lula tem o rabo preso com o Agronegócio e outros setores burgueses
Voltando a criação da TERRABRAS, ela também esbarraria nos interesses do Agronegócio, outro setor privado poderoso no governo Lula. Esse foi o segmento burguês que mais cresceu no país, nas últimas três décadas, com a desindustrialização do país e com a transformação do Brasil em um país exportador de commodities.
No atual governo Lula, esse setor tem representantes como André de Paula (PSD, atual Ministro da Agricultura e Pecuária) e Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente, articulador do setor. Por isso, a ideia da criação da TERRABRAS seria rechaçada pelo Agronegócio, assim como outro ponto do Manifesto: a Reforma agrária e a defesa da soberania alimentar, que beneficiaria, respectivamente, o Movimento dos Sem Terra e a agricultura familiar, mas não agradaria ao Agronegócio.
Mais um ponto do manifesto da Bancada da “Esquerda Radical”, a tributação progressiva da renda e da riqueza, também seria rechaçado pelo Agronegócio e outros setores do empresariado com representação no interior do governo Lula. E o item levantado pela Bancada da “Esquerda Radical”, o da rejeição a acordos de livre-comércio assimétricos, como o acordo Mercosul-União Europeia, seria descartado pelo governo, porque afetaria o agronegócio, ao limitar a expansão das exportações para mercados premium.
A utopia reacionária e oportunista de disputar o governo Lula
O manifesto e o apoio a Lula, por parte da Bancada da “Esquerda Radical”, acabam por remontar a história de disputar o governo petista, que se iniciou no seu primeiro mandato (2003-06). Um dos exemplos da aplicação dessa política nefasta foi a postura do ex-presidente da UNE, Lindberg Farias, que rompeu com o PSTU para virar deputado pelo PT. No final das contas, o já parlamentar Lindberg acabou domesticado pelo governo e terminou por votar na Reforma da Previdência de 2003, que golpeou os servidores e beneficiou os bancos.
Esse balanço, pelo jeito, continua a ser negligenciado por setores que atuam nos movimentos sociais. Em resumo: o governo não girará à esquerda, ele não está em disputa. Como o próprio Lula disse, em junho último, ele não é de esquerda. Acrescentamos: Lula não é, não foi e nem nunca será de esquerda.
Ao invés de trabalhar na perspectiva da unidade da esquerda anticapitalista para enfrentar a extrema-direita, o neoliberalismo petista e o Capital, a constituição da Bancada da “Esquerda Radical” e do seu manifesto, com o contraditório apoio a Lula, só se explica no âmbito da busca desses parlamentares de pegar uma carona, de forma oportunista, no favoritismo do candidato petista nas próximas eleições para, também assim, garantirem as suas eleições.



