A candidatura de Renan Santos, desconhecido do grande público até poucos meses, tem se destacado nestas eleições presidenciais. Concorrendo pelo Partido Missão, recém legalizado, Santos tem apostado em uma ação maciça de engajamento virtual, espaço no qual consegue grande sucesso, embora não tenha disparado nas pesquisas, onde estacionou até agora (agosto/2026) disputando o “3º lugar” com seus parceiros de extrema direita, Zema e Caiado.
Renan tenta furar a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro e se impor como uma ‘novidade’. Tenta chamar a atenção a qualquer custo, mas não escapa a um olhar atento: não há novidade nos velhos discursos reciclados do reacionarismo, do elitismo, sexismo e, essencialmente, de um capitalismo com ‘rosto selvagem’.
Para ocupar tal espaço, o ‘Missão’ e seu candidato usam de determinadas técnicas de comunicação: tom exagerado das redes, recursos para engajamento, cortes, polêmicas, pegadinhas, trabalho profissional virtual intenso e propostas de impacto. Renan afirmou que deseja construir “o maior presídio do mundo” no Ceará (Zema prefere na Amazônia), falou em recriar o estado da Guanabara, prometeu um “banho de sangue” contra criminosos “vagabundos faccionados” e que vai “desfavelizar” o Brasil.
Na entrevista da Globo, defendeu que o Brasil construísse a bomba atômica, reerguendo a bandeira do velho Enéas Carneiro, falecido em 2007. Diferente do candidato do antigo Prona, Renan é um rosto jovial de 42 anos, aparentemente alternativo, mas de bons serviços aos ricos e capitalistas desde a primeira juventude.
Com suas técnicas, a campanha do Missão atrai simpatizantes e coloca os antipatizantes para comentar em seus posts, ampliando o engajamento de seu discurso. Também lidera o ranking de doações e até agora, final de agosto, declarou ter recebido mais de 2 milhões de reais. Santos tem se enturmado com capitalistas pesados do setor financeiro: José Olympio Pereira, banqueiro ex-presidente do banco Safra, João Landau, sócio-fundador da Vista Capital e Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central são apoiadores entusiasmados.
A convenção e lançamento da candidatura, em 16 de agosto, foi um show de horrores. Em frente à Faculdade de Direito da USP, entre outros absurdos, Renan disse que iria “tingir o chão de vermelho com o sangue desses vagabundos”. Os vagabundos seriam as lideranças do PCC e do Comando Vermelho, e contra estes a tolerância seria zero e haveria uma legislação específica aplicada a faccionados, o chamado “direito penal do inimigo”, teoria jurídica alemã formulada por Gunther Jakobs em 1985.
A revista Piauí assim descreveu a convenção do Missão:
‘Na convenção viam-se poucas mulheres e muitos garotos, quase todos brancos. Políticos e militantes do Missão se sucediam no palco – entre eles uma única mulher, a vereadora paulistana Amanda Vettorazzo (União). No palco, adversários como Lula, Sergio Moro e Flávio Bolsonaro eram descritos em termos como “rato”, “virgem no puteiro”, “espinha de geleia”, “bosta”, “burro”, e “maldito”. É o tipo de expressão que também costuma aparecer em prévias de vídeos no YouTube e nas redes, para atrair e estimular o clique. Passar despercebido, jamais. Ao ouvi-las ao vivo, o público reagia com gargalhadas e gritos’. (1)
Renan também vestia, simbolicamente, um colete a prova de balas, mas seu discurso belicista tem muitas lacunas: foca nas facções e esquece o leque de crimes que rondam a vida dura do povo brasileiro. Não dá a mesma prioridade ao feminicídio, por exemplo, e muito menos aos criminosos ricos e capitalistas ligados ou não ao Estado, fundamentais para o funcionamento de milícias e traficantes armados. Santos prega, ao seu estilo demagógico de internet, a radicalização da guerra às drogas combinada com o combate aos favelados e pobres periféricos, ao estilo de Bukele, presidente de El Salvador, referência para a extrema direita no combate ao “crime.
O “estilo Bukele”, em El Salvador.
O “estilo Bukele” refere-se ao modelo de segurança pública do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, marcado pelo combate militarizado supostamente contra o crime organizado. Seu governo está marcado pelas importantes mudanças nas garantias legais em El Salvador: instalou um regime de exceção, suspendeu direitos constitucionais, garantias processuais básicas e estimulou o aprisionamento em massa. Mais de 80 mil pessoas foram presas, numa população nacional ao redor de 6,4 milhões de habitantes. O governo criou megafábricas de detentos e elevou a taxa carcerária do país a níveis recordes.
Junto a isso, exacerbou a comunicação e propaganda, bem ao estilo Renan Santos, dramatizando nas redes sociais num estilo cinematográfico prisão de líderes de facções mostrando essencialmente a força repressiva estatal. Nada liberal, Bukele centralizou o poder do estado e impôs o controle sobre os três poderes e, assim, garantiu mudanças institucionais profundas no país configurando, assim, as medidas extremas de terror de Estado.
Como resultado, houve a profunda queda nos índices de criminalidade e homicídios, a partir de um regime de terror extremo, o que dá a Bukele elevados índices de aprovação popular em função da real “sensação de segurança”.
Os custos sociais são elevadíssimos: prisões arbitrárias de inocentes, mortes sob custódia do Estado e erosão das limitadas liberdades democráticas típicas nas democracias burguesas. O regime de Bukele permite que a polícia prenda pessoas sem mandado por longos períodos antes de qualquer acusação formal, além de restringir o acesso dos presos à defesa. Há prisões por traços físicos, como ter determinado tipo de tatuagem. Claramente, tais abusos são tolerados e a maioria da população aceita abrir mão de parte de suas limitadas liberdades por uma segurança que não tinham anteriormente.
O desafio para a esquerda socialista e revolucionária é imenso, pois a segurança pública é um tema sensível – e será cada vez mais com a crise estrutural do capital – e com pouca discussão visando a construção de uma leitura marxista para o tema.
Obviamente que o tráfico de drogas é parte importante deste cenário de violência que alimenta as facções, milícias e políticos corruptos, todos atores ativos de um capitalismo “marginal e ilegal”. Ao mesmo tempo, a violência real pela qual passam trabalhadores e juventude, em especial nas periferias, requer uma resposta, pois as facções e milícias não se limitam ao controle do tráfico de drogas ilegais. Tais facções orbitam e realizam um capitalismo ‘ilegal’, violento e opressor e, por isso, precisam ser reprimidos pela ação organizada e libertadora das massas trabalhadoras.
Um plano de segurança pública popular efetiva deve partir destes pressupostos, com todas as garantias e liberdades a quem não participa de facções violentas antipopulares, assim como é preciso garantir condições sociais e materiais para retirar milhares do controle ideológico e ‘patronal’ dos líderes das facções.
Diferente disso, a resposta de Bukele e Renan Santos, entre outros, é restringir as liberdades, apertar o cerco sobre setores das facções, instalar o terror generalizado e seletivo sobre a população pobre. Assim, eles garantem a estabilidade relativa da ordem e o enriquecimento aos barões do capitalismo: demagogos e populistas de extrema direita não passam de liberais vulgares nos direitos sociais (estado mínimo neste sentido) e ‘estatizantes’ na repressão militar e policial.
O plano econômico do Missão (ou MBL) e Renan Santos
Eles também têm um plano econômico. Se colocando para a burguesia como aqueles que vão garantir mais riqueza, apresentaram um programa econômico que, entre tantas outras coisas, defendem:
- Desvincular os benefícios previdenciários e da assistência social do Salário Mínimo, isto quer dizer que um benefício, como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) para crianças autistas, auxílio previdenciário para trabalhador/a acidentado/a ou aposentado/a poderão ser menos de um salário mínimo. Nenhuma palavra sobre os fraudadores e grandes devedores da Previdência Social, causa principal dos déficits;
- Acabar com o piso de investimento e custeio das saúde e educação públicas. A Constituição Federal obriga os governos destinarem uma porcentagem mínima do orçamento para essas áreas, no entanto, muitos fazem manobras fiscais para burlar essa regra. Já Renan Santos quer acabar com ela, ou seja, os governos estaduais e federal não teriam mais a obrigação de garantirem esse mínimo em saúde e educação públicas;
- Cortes nos gastos públicos. Mesmo com todos os problemas sociais que passamos, Renan Santos acha que o Estado gasta muito com o povo e ele quer cortar até isso. Essa é a mesma receita de governos como Milei na Argentina ou Rodrigo Paz na Bolívia. Dessa forma, defendem preservar os ricos e jogar sobre as costas da classe trabalhadora mais fome, mais emprego precário, menos acesso aos serviços públicos, etc. O resultado dessa política na Argentina é taxas elevadíssima de desemprego, desmonte da educação, aumento da pobreza, entre outros problemas.
- Acabar com a CLT e até a Justiça do Trabalho. Marcos mínimos de preservação dos direitos (e mesmo assim as empresas burlam e fraudam esses direitos), Renan Santos e o Missão simplesmente defendem acabar com esses dois mecanismos, transformando as relações trabalhistas em relações comerciais (ou seja, não é um contrato de trabalho com direitos, mas uma prestação de serviços com obrigações). Isso significa que não haverá mais direitos trabalhistas e o trabalhador não poderá buscar seus direitos.
Renan Santos não é ‘alternativo’, é apenas o capitalismo selvagem nas redes sociais e na vida real
O partido Missão é herdeiro do Movimento Brasil Livre (MBL), que surgiu oficialmente no final de 2014, em São Paulo. Participou ativamente no ano anterior, nas manifestações de rua em junho de 2013, disputando o espaço com a esquerda nos protestos.
Inegavelmente, o grupo nasceu e cresceu durante a crise política e econômica do país, o desdobramento da Operação Lava Jato, além do impeachment de Dilma, mas também como parte do crescimento internacional da extrema direita.
O movimento teve forte ligação inicial com grupos de ‘jovens liberais’ inspirados em pautas de think tanks voltados ao ‘livre mercado’. Como um setor da extrema direita – e que disputa espaço com o bolsonarismo raiz – a ladainha reacionária da candidatura Renan Santos, além do que descrevemos acima, inclui pautas econômicas e morais conservadoras, o ultraliberalismo estilo Milei, a subserviência ao imperialismo – apesar da bomba atômica -, privatizações, Estado social mínimo e Estado máximo para reprimir, prender e matar.
Contrastando com esse discurso de moralidade, vale destacar, os vários processos e condenações aos seus membros por agressões a ativistas de esquerda, falas sexistas (como de Artur do Val, de que as “mulheres ucrânias são fáceis porque são pobres”) e lavagem de dinheiro.
Nós, da Emancipação Socialista, defendemos o combate sem tréguas à extrema direita representada também pela candidatura ‘jovial e energética’ de Renan Santos. Atrás de tal aparência, temos a essência ultrarreacionária, a serviço da acumulação dos capitalistas da cidade e do campo e do setor financeiro/rentista. Aos trabalhadores e oprimidos, ele promete arrocho, redução de direitos e repressão contra qualquer luta social e, por tudo isso, não tenhamos nenhum tipo de trégua com este setor que merece nosso combate implacável diuturno.
Como alternativa, defendemos nestas eleições o voto nas candidaturas anticapitalistas – UP, PSTU ou PCB – como parte da construção de um bloco político que unificadamente possa se constituir contra a extrema direita – nas lutas, nas ruas e nas eleições -, superando ao mesmo tempo a ‘esquerda da ordem’ e suas políticas de colaboração de classes.
O desafio é imenso e a história nos coloca os dilemas de nosso tempo.
- https://piaui.uol.com.br/web/renan-santos-missao-mbl-campanha-tiktok/



