Eleições dos Estados Unidos: entre falar e ter um Programa de Esquerda

Foi dada a largada para as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Como principal país capitalista do mundo, o que acontecer por lá terá influência em várias partes do mundo. A eleição de Trump, por exemplo, admitimos ter fortalecido a extrema-direita no mundo.

Importante acompanharmos esse processo.

Partido democrata é de esquerda?

O projeto político do governo Trump é o de extrema direita, com política de perseguição a imigrantes (acusados pelo desemprego dos estadunidenses), ataque a direitos sociais, defesa da tortura contra prisioneiros de guerra, apoio a golpes de Estado como na Venezuela, apoio a governos como o israelense com prática de extermínio do povo palestino, assassinato de membros opositores, entre outras ações.

E é candidato à reeleição, com grandes chances. Como o ódio a ele também é grande, quem tem chance de derrotá-lo conta com grande simpatia. Nesse caso, é o Partido Democrata.

Os democratas, que também mantêm vivo esse sistema eleitoral antidemocrático, se apresentam como partido de esquerda defensor de programas sociais e ao lado dos mais pobres. Mas, nada mais falso. O Partido Democrata, com discurso “mais ameno e enganador”, é um dos partidos da burguesia estadunidense e, como tal, defende interesses da burguesia.

O projeto político é, em essência, o mesmo dos republicanos. Vários presidentes democratas estiveram à frente da organização de golpes de Estado (como o do Brasil), ações ilegais de serviços secretos no exterior, perseguições contra os Panteras Negras. Foi sob os democratas que a presença militar dos Estados Unidos no Vietnam saltou de 16 mil soldados para 550 mil. Ou seja, nada diferente. São, portanto, inimigos da classe trabalhadora.

O que explica a força de Bernie Sanders?

A força de Bernie Sanders, um dos pré-candidatos à presidência pelo Partido Democrata, é inegável. Com forte apoio na juventude e organizações do movimento social (sindicatos, etc.) tem obtido apoio até mesmo de grupos da esquerda anticapitalista.

Outrora um “país das oportunidades” é o retrato do mundo capitalista com maior parte da riqueza concentrada em poucas mãos, grande poder dos bancos, aumento da pobreza, problemas sociais (pessoas em situação de rua, fome, etc.), empregos precários e sem direitos trabalhistas.

E a juventude, além de sentir esses problemas com maior intensidade, precisa lidar com o endividamento para os custos da universidade.

É nesse contexto que surge Bernie Sanders com propostas que respondem às pessoas que não acreditam mais nas promessas dos “velhos políticos” dos Partidos Democrata e Republicano.

As várias greves que ocorreram no país nos últimos anos também são importantes. Professores, trabalhadores dos fastfood, metalúrgicos da GM, além das mobilizações de movimentos negros e mulheres contra Trump ajudaram a impulsionar sua candidatura.

Bernie Sanders é uma alternativa?

Além dessas questões, cabe pontuar o papel de Bernie Sanders nesse processo eleitoral, que é a “grande revolução” num sistema eleitoral que sofre muitas críticas.

Em 2016 foi a “grande novidade” quando tentou candidatura contra Trump. Mas, como a derrota era certa, renunciou e apoiou Hillary Clinton. Fortalecido, agora retoma.

No contexto dos Estados Unidos, seu programa, de fato, tem pontos progressivos como crítica aos banqueiros, Ensino e Saúde gratuitos, apoio a salário mínimo de 15 US$ por hora, defesa do meio ambiente, crítica à política de Israel contra os palestinos, etc.

O problema maior é não dizer como cumprir esse programa. O sistema político nos Estados Unidos é muito fechado, controlado por grandes corporações e impede qualquer mudança “por cima”. Bom exemplo foi a dificuldade de Obama mudar o sistema de Saúde e ampliar o acesso, em parte já custeado pelo Estado. Os “lobistas” de seguradoras boicotaram e sabotaram o plano desde o início.

Então, é fácil concluir que “por dentro do sistema” não haverá mudança. Nem com Bernie Sanders nem com outra pessoa. Esse sistema político foi construído para não haver mudança, ou seja, só será derrotado a partir das lutas e mobilizações da classe trabalhadora.

Intitula-se como “socialista democrático” mas quando diz que socialismo democrático “significa que nós devemos criar uma economia que funcione para todos, não apenas para os muito ricos”, na verdade, está defendendo a domesticação do capitalismo, ilusão já testada.

Somente poderia ser uma alternativa se chamasse à mobilização a classe trabalhadora para lutar por essas reivindicações. E não é o caso. Então, nem o Partido Democrata e nem Bernie Sanders são alternativas para resolver os problemas da classe trabalhadora dos Estados Unidos.

Trump é a expressão do crescimento da extrema-direita

A eleição de Trump já foi a demonstração do crescimento da extrema-direita mundial. Inglaterra, França, Colômbia, Brasil, etc. seguiram nessa direção. O significado foi que, diante da crise econômica e inexistência de uma alternativa pela esquerda, uma parte muito significativa da classe trabalhadora (sobretudo a camada média) se aproximou de soluções contra imigrantes, pela retirada direitos sociais e trabalhistas (o tempo já se encarregou de mostrar que quanto mais tiram mais querem tirar), etc.

Frisamos que se trata da política de um setor da burguesia imperialista o endurecimento aos ataques tanto aos trabalhadores dos Estados Unidos quanto aos povos de outros países. O plano contra o Estado palestino, ameaça ao povo venezuelano, prisão/deportação de imigrantes, etc. sinalizam que, com Trump, a burguesia vai continuar com a mesma linha política.

Mas, também destacamos que o Partido Democrata não significa uma mudança drástica, pois se trata de política de Estado com a qual ambos os partidos estão comprometidos.

Um processo antidemocrático

A “maior democracia do mundo” não tem eleição direta. O presidente é eleito por um colégio eleitoral composto por 538 delegados, onde a vontade do povo não conta.

O candidato que ganhar no Estado conquista o direito de indicar os delegados (representantes) para o colégio eleitoral. Em 48 estados o sistema é “o vencedor leva tudo”, ou seja, têm o direito de indicar todos os representantes para o colégio eleitoral, mesmo se a diferença for de apenas um voto.

É um processo bem antidemocrático, pois há a possibilidade de quem conseguir a maioria do voto popular perder a eleição no colégio eleitoral. Em 2000, o democrata Al Gore ganhou a eleição nos estados por mais de 500 mil votos, mas George Bush levou com 271 votos. O mesmo com a democrata Hillary Clinton, em 2016, ganhou no voto popular com diferença de quase 3 milhões de votos, mas Trump foi eleito com 228 votos.

É um sistema eleitoral construído para manter todo o processo sob controle e garantir sempre que os partidos Democrata e Republicano, representantes dos interesses da burguesia estadunidense, ganhem as eleições.

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