A farsa do empreendedorismo

No último trimestre de 2021, o Brasil estava com a taxa de desemprego de 11,6% (IBGE), ainda que recuada em relação à 2020, que chegou a 14,4%, mostra patamares elevados, levando em consideração que esses números não contabilizam as pessoas que desistiram de procurar emprego e aquelas em subempregos. Ainda no mesmo estudo, constatou que a renda média do trabalhador também chegou ao menor patamar mensurado, de R$2,444. Mostrando que mesmo aqueles que possuem emprego, estão mais pobres.

Como o capitalismo precisa dessa superexploração e não dá conta de garantir direitos básicos para todos os trabalhadores ao mesmo tempo, cria ideologias para culpabilizar o trabalhador pela sua condição de explorado, uma dessas formas é a proposta do empreendedorismo.

O que é o empreendedorismo?

Esse termo sugere que a pessoa consiga planejar, criar, gerenciar e realizar seu próprio negócio, sendo o “próprio patrão”. Sob essa lógica, qualquer pessoa pode ter uma ideia de um empreendimento e fazendo investimentos, conseguir viver deste trabalho, com perspectivas inclusive de crescer e ter uma grande empresa.

O neoliberalismo cumpre bem essa tarefa, sempre individualizando as questões sociais como a falta de emprego e a diminuição de renda da população, visto que são questões estruturais de nossa sociedade, para essa proposta fantasiosa de que com esforço, qualquer pessoa consegue abrir uma empresa e caso não consiga o sucesso e se tornar milionário, é porque não tentou da forma correta ou o suficiente e deve tentar novamente.

Essa ideia perpassa por diversos espaços, como nas mídias com programas como “Shark Tank”, nas redes sociais, páginas sobre essa temática chegam a ter mais de 2 milhões de seguidores, em muitos cursos profissionalizantes e de ensino superior, bem como agora com a Reforma do Ensino Médio, também vemos diversas empresas focando para que os jovens estudem e se preparem para serem empreendedores.

Outra forma de iludir as pessoas, é apresentando seus ícones, jovens e ambiciosos empresários que saíram de uma garagem no Vale do Silício e se tornaram grandes milionários como Bill Gates (Microsoft) e Steve Jobs (Apple); Mark Zuckerberg (Facebook/Meta) também é visto dessa maneira e a produção de filmes e documentários contando suas vidas, bem como toda a estrutura de um parque de diversões no Vale do Silício com museus em suas homenagens, proporcionam a ideia canônica de seguir o modelo desses bilionários que nada mais fizeram que aproveitar do mercado capitalista e criar negociatas que alavancaram seus negócios a custa de muito trabalho superexplorado. Não à toa, diversos trabalhadores da empresa chinesa Foxconn se suicidaram dentro da empresa (produzem os equipamentos da Apple), à mesma época, Steve Jobs deu a seguinte declaração: “Apesar de todo o suicídio ser uma tragédia, a taxa de suicídio na Foxconn está muito abaixo da média das empresas chinesas. Estamos todos atentos à situação.” Normalizando a ocorrência de suicídios dentro de empresas…

Ainda nessa discussão, alguns apresentam a “Teologia do Empreendedorismo”, que realiza uma correlação dessa perspectiva com crenças bíblicas, usando a culpa, o castigo e o sofrimento como caminhos para se chegar ao sucesso…

Isso dá certo?

De imediato pontuamos que não. Primeiro que a possibilidade de se tornar um milionário é praticamente nula. Segundo a revista Forbes, dos 12 brasileiros mais ricos, 9 o são devido a herança de suas famílias, os outros também são pessoas de grande poder aquisitivo que conquistaram esse posto a partir da grande e intensa exploração de muitos trabalhadores (como Eike Batista).

Além disso, as maiores potências mundiais não são os países com maior número de trabalhadores como empreendedores, esse circuito fica em países periféricos como Bangladesh que possui 3/4 de sua força de trabalho nessa categoria, mostrando que o empreendedorismo favorece ainda mais a exploração individual sem possibilidades de articulação entre trabalhadores, visto que “não há um patrão em comum para enfrentar”.

Também, é necessário resgatar que ser dono de seus instrumentos de trabalho, não oferece a propriedade sobre o seu trabalho que fica regulado pelo mercado de trabalho e as limitadas possibilidades de comercialização, pois mesmo com a internet e a fantasia de maior expansão de lojas virtuais. O domínio virtual, assim como o real, é predominante das grandes redes de vendas. Mesmo com a facilidade de abertura de CNPJ e MEI, são armadilhas que mais possibilitam endividamento da classe trabalhadora do que crescimento comercial (o endividamento das famílias brasileiras bateu novo recorde em 2021 com 70,9% com suas rendas comprometidas).

Assim, a saída fantasiosa do empreendedorismo é mais uma artimanha neoliberal de iludir a classe trabalhadora de que pode ascender socialmente nesse sistema e principalmente, desarticular e tirar a possibilidade de reconhecimento da classe trabalhadora enquanto classe, busca estimular a disputa e nos vermos como adversários a superar na conquista capitalista.

Entendemos que é importante não cair nessas falácias, e mesmo que seja necessário organizar pequenos comércios como forma de sobrevivência, precisamos manter a mobilização e diálogo contínuo entre trabalhadores, pois só no enfrentamento à classe dominante podemos superar esse sistema de exploração.