Feminismos Negro e Negros na Periferia

A nossa próxima Live, Feminismos Negro e Negros na Periferia, vai discutir a situação de negras e negros nas periferias do país.

Quando observamos os dados sobre a população negra brasileira facilmente percebemos que se trata de uma parcela da classe trabalhadora ainda mais explorada. Quando há emprego são reservados os piores, os mais baixos os salários, está entre os maiores índices de pobreza, menores índices de acesso ao ensino superior e está também entre as maiores vítimas de violência policial, etc.

Junto com os dados alarmantes há ainda o histórico “racismo brasileiro”, muito presente na vida de negros e negras, no entanto, sistematicamente negado pelo Estado e pela classe dominante no Brasil.

As últimas declarações de Bolsonaro e Mourão, que afirmam não existir racismo no Brasil, são exemplos contundentes de como o Estado brasileiro nunca o criminalizou de fato e ainda permite negar a existência na prática, servindo até mesmo como incentivo para continuar tudo como está. Nada do que já não compreendíamos sobre esse governo.

Paralelo a isso, a burguesia brasileira – que impulsionou a ideologia racista no país como forma de manter a escravidão durante mais de 3 séculos – dá mostras, todos os dias, que suas empresas têm o racismo como prática, inclusive na gestão: contrata-se menos, paga-se os menores salários e quase não há também negros ou negras em cargos de gerência e supervisão.

De todos os discursos da burguesia brasileira, um bastante cínico é o de que há democracia racial no Brasil. De acordo com essa ideologia “todas as raças” convivem harmoniosamente, a integração e a miscigenação sempre ocorreram de forma consensual. Essa teoria é para “justificar” discursos e práticas como as de Bolsonaro e Mourão.

População Negra nas Periferias

Nas periferias a falta de serviços públicos ou de baixa qualidade (Saúde, Educação, Saneamento, Transporte, etc.) deixa a situação ainda pior para negros e negras que já contam com o desemprego, subemprego, moradias amontoadas, etc. e “prova” que a sociedade capitalista diferencia o tratamento mesmo entre a classe trabalhadora, entre brancos e pretos.

E essa situação nas periferias ainda carrega o peso da extrema violência policial, sobretudo contra a juventude. Os “enquadros” são seguidos de todo tipo de violência desde a psicológica (ameaças de armar flagrantes, xingamentos racistas, etc.), a física com agressões e espancamentos até os muitos casos de assassinatos pela ação da polícia.

Essas ações policiais são responsáveis por encherem as cadeias e penitenciárias de jovens negros. A maioria sem condenação definitiva. Muitos dos condenados são por crime de pequeno potencial (furto de alimento, posse de drogas em pequenas quantidades que não caracterizam tráfico, etc.) em que as únicas testemunhas são os próprios policiais participantes da abordagem.

A força das mobilizações nos Estados Unidos conseguiu impor um importante debate sobre o racismo no mundo. Muitos são obrigados a admitir, aliás, bem tarde, o racismo, ainda que nada façam para acabar com ele. Até mesmo no Brasil a realidade tem forçado muitos a admitirem situação cruel.

Um exemplo é o Grupo Globo que, há décadas com a abordagem jornalística racista e de criminalização de negros, agora se coloca como “empresa contra o racismo”. No entanto, a prática só muda nas aparências. Basta ver novelas e filmes que ainda apresentam personagens negras e negros de forma caricatural.

Ou a empresa Carrefour que carrega, além do assassinato de João Alberto, as várias denúncias de abuso e violência racial enquanto se diz contra o racismo.

Assim, mesmo quando há um dito “reconhecimento” da existência do racismo por parte de parcela da burguesia, não há medidas efetivas de combate. Ou seja, não há o porquê buscar sua origem e seu fim de fato se é uma necessidade da exploração capitalista. Mas, essa culpa a classe dominante não quer carregar.

Assim, mesmo quando há um dito “reconhecimento” da existência do racismo por parte da burguesia, não há medidas efetivas de combate. E menos ainda vão à origem e causa, afinal, seria um reconhecimento de que o racismo (e outras formas de opressão) está relacionado à exploração da classe trabalhadora.

Formas de Resistência

Para nós, a luta contra o racismo está totalmente ligada à luta contra o capitalismo, causa do racismo negro. Não o entendemos como apenas um desajuste do sistema, bastando algumas medidas paliativas para resolver o problema.

A luta antirracista e anticapitalista é uma questão central, ainda mais nesse momento em que muitos setores burgueses (como as empresas Globo) querem se apropriar da pauta negra para desvirtuar o sentido e a necessidade da luta do povo negro.

Nesse sentido, por exemplo, os vários programas que insistem em afirmar que “basta um esforço pessoal para se libertar da condição de desigualdade” seguem, na verdade, para incentivar um “empreendedorismo negro”, como se fosse esse o problema.

Também há o debate sobre o caráter de resistência da mulher negra da classe trabalhadora, triplamente explorada e oprimida (pela classe, cor de pele e gênero). Para nós, essa luta também deve ser contra o sistema explorador, pois não basta conquistar prefeituras ou governos com mais ou menos políticas públicas. É necessário lutar pelo fim da sociedade capitalista que é racista e machista para buscar acabar com as desigualdades raciais e de gênero.

Para os revolucionários a luta contra toda forma de opressão deve estar articulada com a luta contra a exploração capitalista. O racismo, o machismo e a LGBTTfobia são partes do mecanismo apropriado pelo capitalismo para aumentar sua lucratividade. Essa é a razão de ser impossível acabar com a opressão nesse sistema. Os capitalistas não vão abrir mão dos lucros obtidos com a opressão e suas várias formas.

Dizer que a opressão não vai acabar no capitalismo não é a mesma coisa de deixar essa luta para depois da Revolução, pelo contrário, cada conquista alcançada com as lutas do agora deve festejada, mas não as consideramos como ponto de chegada.

Esse é um importante registro para diferenciar uma política revolucionária contra as opressões de uma política reformista/burguesa. Enquanto essa busca negociar e ressaltar migalhas para parar nas lutas imediatas, nós seguimos insistindo nas lutas anticapitalistas e antirracistas para avançarmos na unidade da classe trabalhadora de conjunto na destruição desse sistema explorador.