O resistir e o Dia Internacional de Luta da Mulher

As mobilizações de mulheres pelo mundo, suas marchas e atos em muitas cidades do Brasil, no último 08 de março, são verdadeiras demonstrações de resistência e de força.

O patriarcado em meio à crise estrutural do capital, às constantes crises econômicas e ao crescente avanço da extrema-direita faz com que as mulheres, em várias partes do globo, a cada dia, sintam de forma mais intensa o aumento da opressão capitalista e busquem variadas formas de sobrevivência e de reação.

Isso tudo também leva parte das mulheres, especialmente a trabalhadora, a participar e se envolver nas lutas contra os desmandos do sistema opressor, de seus governos e contra a intensificação da exploração (que para as mulheres vai além das perdas de direitos trabalhistas, sociais e democráticos).

E, nesse sentido, o Dia Internacional de Luta da Mulher representa a cada ano, de certa forma, além de seu valor histórico, um levante que questiona de fato o sistema. É um dia de unidade internacional em que as mulheres se unem em luta em vários países do mundo, em muitas escolas, em sindicatos e nas ruas.

Num primeiro momento se unem contra o machismo, a violência imediata e por vida. E a cada ano, em cada marcha, muitas passam a reconhecer sua classe, sua raça, sua própria história e assumem a necessidade da luta política cotidiana além de reconhecerem a urgente e necessária transformação da injusta realidade.

As marchas e manifestações pelo mundo

Essa demonstração de força na luta, expressa no último dia 8, apresentou pautas de movimentos da classe trabalhadora e reivindicações mais gerais de movimentos de mulheres com suas especificidades em cada país.

Até mesmo as redes sociais registraram uma mudança nos assuntos mais comentados nas duas últimas semanas referentes a esse dia: convocavam para protestos em defesa de direitos das mulheres e 40% tratavam da importância da luta por igualdade, de combate ao machismo e à misoginia.

As ruas da Europa, diante do surto do Coronavírus, não foram tomadas como no ano passado. Mesmo assim, há registros de manifestações na Sérvia, na Itália, na Espanha.

Na França, 60 mil pessoas protestaram incorporando também a luta contra a Reforma da Previdência e a alta de preços. Os principais alvos foram Macron e o cineasta Roman Polanski (recentemente o prêmio César e acusado do estupro de doze mulheres). Além da luta contra os cortes e o desemprego, registraram intensa indignação com o aumento do feminicídio e falta de políticas públicas, o que levou ao início de uma campanha contra o sexismo, um problema político e social por todo o país.

Na Itália, mesmo com o Coronavírus, milhares ocuparam as ruas contra os cortes de direitos e o crescente aumento do número de violência contra as mulheres. Mais de 50 praças foram tomadas com foco na denúncia de casos de abusos em Centros de Combate à Violência, a fim de demonstrar a crueldade do machismo e das insuficientes ou falsas políticas públicas anunciadas pelo governo.

Em países como o Sudão, Iraque e Paquistão também ocorreram atos. Nesse, cerca de trezentas mulheres levantaram cartazes com dizeres como “Meu corpo, minhas regras” enquanto cerca de dois mil muçulmanos impunham seus cartazes com palavras religiosas “se o corpo é de Alá, a decisão é de Alá”.

No Chile, os atos e mobilizações foram aos gritos de “puta, vagaba mas nunca paca” em alusão às mulheres policiais e “morra Piñera, assim como nossas companheiras!”.

Cerca de três milhões de pessoas ocuparam as ruas do Chile. Pediam a renúncia de Sebastian Piñera e de Isabel Plá (Ministra da Mulher), que declarou desconhecer abusos sexuais cometidos pela polícia e que assume bem sua classe social ao desconsiderar a situação de miséria e de violência de boa parte das mulheres trabalhadoras.

No Brasil, destacamos as mobilizações ocorridas em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo com força nas capitais e em cidades como Niterói e as do ABC Paulista.

Além de reivindicações em defesa da vida contra a violência doméstica, o feminicídio, pela descriminalização do aborto e etc. as marchas pautaram homenagens à Marielle Franco, Dandara e mulheres indígenas.

E não pouparam o governo de Bolsonaro e a sua própria imagem como presidente. O “Fora Bolsonaro” ecoou em vários cantos e carregou faixas e cartazes. A ministra Damares, que também demonstra bem sua classe social, não deixou de ouvir: “Fora Bolsonaro e leve a Damares junto!”, o que expressa a não aceitação de uma mulher burguesa entre nós apenas por ser mulher.

Uma mulher, com máscara cirúrgica, em que se lia BOZO VÍRUS, foi fotografada e essa imagem ainda circula pelas redes sociais celebrando o intenso mal provocado por esse governo.

Um destaque para a América Latina

A América Latina tem adotado o 8M como importante dia na luta contra a violência machista. E em países como Argentina, Brasil, Chile e México onde as condições de vida da mulher têm piorado e têm até governo de extrema-direita, como Bolsonaro, o nível de enfrentamento tem avançado e assumido diversas formas.

Em novembro de 2019, o Coletivo Feminista Lastesis, chileno, apresentou a performance O VIOLADOR ES TU que correu o mundo. No Rio de Janeiro foi apresentada na Praça Mauá. As mulheres listaram vários opressores (os juízes, as igrejas, o Estado, o presidente) e receberam uma bela participação do público que respondeu com um sonoro ELE NÃO contra o governo opressor de Bolsonaro.

E ao final, a performance e sua música se apropriaram da denúncia do assassinato de Marielle: “Marielle está presente, semente. O assassino dela é amigo do presidente”.

Com tudo isso, é fundamental esse dia que une as mulheres em luta em vários cantos e de diversas formas contra todo tipo de opressão e pela vida. Uma data considerada controversa, iniciada e marcada com a luta de mulheres operárias, que já possui até pauta unificada e que necessita urgentemente seguir o caminho da transformação radical e cotidiana dessa realidade opressora e desigual.