Em entrevista ao podcast Três Irmãos, Guilherme Boulos soltou o verbo criticando a esquerda não governista e que faz críticas ao governo no qual ele é Ministro da Secretaria Geral ¹. Neste texto, pretendemos trazer uma breve resposta aos lugares comuns e à lógica intelectualmente desonesta que ele utiliza ao polemizar com o conjunto da esquerda que não sustenta nem compõe o governo Lula 3.
Tal abordagem começa após Boulos comentar a proposta do governo federal sobre a escala 6×1. Optamos por descrever parte mais significativa deste trecho para fazer a devida réplica. Diz ele, ao rebater a posição dos críticos:
“(…) você vê gente dizendo: porra, mas então isso é uma traição do governo Lula (…) porque tinha que ser o máximo de 4×3 e 36 horas. (…) a vida é dura, cara, fazer política significa enfrentar contradição e partir da realidade. Sabe uma crítica que eu tenho de um segmento da esquerda que eu chamaria de um segmento academicista ou lacrador? É uma turma que se comporta como se fosse uma consciência crítica da esquerda, um superego (…). Então, o trabalho principal é você falar o que a esquerda não faz, onde a esquerda erra… a esquerda real, a esquerda popular, a esquerda que disputa de verdade. (…) uma testemunha da história que fica ali dando aulas de saber do que a esquerda deveria fazer”.
Embora ele não cite com quem polemiza tudo indica que se refere ao setor minoritário de seu partido mais distante do governo federal, à esquerda anticapitalista (PSTU, PCB, PCBR, UP…) e outros vários grupos incluindo a nossa organização Emancipação Socialista e os camaradas do MFSR: um campo que podemos denominar de esquerda socialista ou radical ou marxismo revolucionário. Ele demonstrou estar bem incomodado pelas críticas à esquerda que tem recebido.
Vamos por partes: é muito desonesto no argumento sugerir que a maioria da militância da esquerda revolucionária que atua em movimentos diversos pelo país se resuma a propagandistas e lacradores ou ainda aja como ‘conselheira’ ou ‘consciência’ do governo Lula ou da esquerda ‘real’, um curioso termo que ele utiliza e depois explica.
“Só que só prega pra convertido, é uma vanguarda muito aguerrida, só que sem nenhuma retaguarda, um general sem exército. Não bota dez pessoas na rua, não convence o vizinho das suas posições e quase se regozija porque ele é o mais revolucionário que todo mundo. Sabe porque? Porque não precisa lidar com a vida real, que é feita de contradição, de negociação, não dá pra você ser purista e dizer ‘é tudo ou nada’… ou vai ser 4×3 agora ou a gente não aceita nada e o resto é traição (…) você tem que ter o programa máximo do socialismo ou você é traidor. Essa visão purista é de quem se contenta só em ser consciência crítica e não disputa a consciência dos trabalhadores reais (…)”.
Óbvio que todo mundo que atua nas lutas utiliza a análise para intervir embasados em possibilidades, tática e estratégia. Não é verdade que seja prática permanente o “tudo ou nada”, tal assertiva não se sustenta. Boulos sugere que a esquerda socialista não mobiliza, mas na mesma entrevista reconheceu que seu campo político não conseguiu mobilizar pela pauta 6×1. Quem não lembra do 1º de maio ‘flopado’ mesmo com Lula presente em São Paulo?
Existe uma diferença imensa entre ter capacidade eleitoral e capacidade mobilizatória de colocar o povo na rua. São duas coisas bem diferentes, mas o Ministro usa demagogia e meias verdades neste caso.
“(…) ter diferença na esquerda é normal, mano, a esquerda não tem pensamento único e nem deve ter, só que nós temos que colocar estas diferenças como elas são, não como caricatura. Do meu ponto de vista é o seguinte: nós temos uma esquerda popular que tá nos movimentos sociais, que tá com o trabalho real com o povo que tem muitos dirigentes partidários e parlamentares juntos que se alinham com isso… e a esquerda popular sabe que a vida dura. Quando eu organizava e participava de ocupação de terra improdutiva pelo MTST se eu chegasse na assembleia com cinco mil pessoas que tavam pagando aluguel sem poder ou numa área de risco e dissesse: Ô gente, ou é socialismo ou desapropriação da especulação imobiliária ou é nada! Eu ia ser linchado…. sabe o que a gente tinha que fazer ? tinha que negociar com o proprietário pra não ter despejo, prazo na justiça, tinha que negociar com um governo ás vezes de direita pra poder sair um bolsa aluguel, uma moradia…”
Boulos reconhece que as diferenças existem na ‘esquerda’, mas desqualifica seus opositores e usa as caricaturas que condena. Vejamos: a maioria dos lutadores sabe que nem sempre a vitória de uma greve ou de uma luta é total, ou seja, existem vitórias parciais e mesmo derrotas. E nos últimos tempos, cada vez mais difíceis, isso pode ocorrer muito.
Todo mundo reconhece que se pode sim negociar com prefeitos, patrões, governadores ou presidente, mesmo de direita: lutamos nas greves do serviço público e no setor privado e sabemos disso. Mas negociamos alicerçados em uma luta! Ninguém sugere em assembleia de greve algo como “socialismo ou nada”. Chega a ser risível esta polêmica nivelada bem por baixo e desqualificada na sua essência, pois desqualificar o outro por divergência é das piores práticas na política.
“(…) essa é avida real de quem trabalha com o povo e não a vida de quem tá propagando ‘eu sou o mais revolucionário do mundo e todo mundo tá traindo não sei o que e tal’. Falar isso, bicho, até papagaio fala, mas a questão é quem constrói uma esquerda real que tem capacidade de disputar e derrotar a extrema direita em eleição, uma esquerda real que tem capacidade de mobilizar o povo no movimento social (…) olha o que o Lula tá fazendo na geopolítica mundial, foi o único cara que bateu de frente com o Trump e aí as pessoas parecem que abstraem a realidade do que é a consciência do povo, a força da extrema direita, o centrão no Congresso e sai fazendo uma lista de desejos do que a esquerda deveria fazer. Essa esquerda pode existir (…) mas temos que colocar o debate como ele é, (…) senão fica uma voz dizendo e as pessoas, os militantes de esquerda muitas vezes desavisado vai olhar e falar: ‘porra, esse Lula abandonou a esquerda, esse Boulos também não é mais o mesmo tá traindo as pautas.. e os revolucionários estão aqui…. revolucionário de apartamento”?
A vida real de quem trabalha está bem distante do que vive o sr. Boulos atualmente: ele dedica sua militância para contribuir com a conciliação/colaboração de classes de Lula 3 e, nesta entrevista, ele falou em ‘negociação’ várias vezes e bem pouco sobre ‘luta’, quase não aparece tal palavra. Sua prioridade é sustentar o governo de Frente Ampla custe o que custar.
Hoje, Boulos senta-se à mesa com os ministros do Centrão e com setores da burguesia para tratar dos assuntos políticos e negocia com estes setores migalhas, mediações e retrocessos. É um general que negocia sem luta e sugere que para derrotar a extrema direita é preciso participar como Ministro em um governo como este.
Ora, as lutas contra a extrema direita e as ameaças às liberdades democráticas podem ser feitas de forma ampla e unificada, sendo que assim fizemos no último período. Não é necessário assumir um ministério. Exemplos da história não faltam, como no caso do POUM na Espanha nos anos 1930, tema trazido em série de três textos pela Emancipação Socialista no ano passado.
Naquele momento, mesmo leal ao governo Republicano, o POUM acabou trucidado pela burocracia estalinista. Isso não deve ocorrer agora, pois Boulos e seu partido estão bem adaptados e são aliados de primeira hora do petismo e da Frente Ampla, muito além de um fato conjuntural.
Obs: pedimos desculpas ao POUM por essa analogia, mas cabe na polêmica trazida pelo Ministro.
A correlação de forças justifica qualquer política?
A resposta ao título anterior é não! A correlação de forças deve ser sempre considerada na elaboração política, mas não justifica tudo e qualquer concessão, conciliação ou abandono das pautas.
Mesmo em conjunturas muito difíceis continuamos sendo socialistas e tendo princípios. Podemos lutar de forma unificada em lutas comuns, não faltam exemplos na história, mas não abrimos mão da independência de classe, da autonomia dos movimentos sociais e do internacionalismo, por exemplo. Princípios não negociamos.
Para as correntes reformistas e burocráticas, a correlação de forças desfavorável torna-se uma desculpa para tudo. É muito desonesto no debate justificar visões de estratégia e suas visões de mundo alicerçadas apenas na correlação de forças. Deixam a impressão que numa correlação mais favorável tudo seria mais ‘a esquerda’ e mais ‘reformas’ se colocariam. Mentira! Lula e o PT governam desde 2003 – exceto no período Temer/Bolsonaro – e teve situações bem mais favoráveis, mas manteve a sua política geral essencialmente a mesma.
Em outras palavras, a conciliação de classes e o reformismo cada vez mais fraco desta esquerda da ordem do capital é uma estratégia e não se coloca por uma imposição da realidade ou da correlação de forças desfavorável. Sejamos honestos no debate.
O papel da esquerda socialista
O campo da esquerda radical pode ser criticado: muitas vezes pecamos por excessos, no esquerdismo infantil, no sectarismo e em erros de análise. É da vida e a crítica deve existir. Mas a verborragia do governista Boulos assume a desonestidade e a caricatura contra um campo no qual ele ao menos já esteve próximo.
O Ministro precisa perceber que as críticas da esquerda socialista são legítimas, pois somos oposição de esquerda ao governo Lula – ao menos uma parte de nós – e também compreendemos como necessário o embate permanente contra a extrema direita e suas variantes. A esquerda socialista luta estrategicamente para derrubar o capitalismo e pela construção da Revolução Socialista e isso inclui os governos que sustentam esse sistema. É essa a localização da oposição de esquerda ao governo Lula: de forma oposta, Lula, e a agora Boulos, buscam a conciliação com a “casa grande” e os exploradores.
Ainda sobre o direito à crítica, quem sabe o Ministro assiste a si próprio no discurso realizado em 2015 num ato no Palácio do Planalto chamado pelo governo Dilma que passava maus momentos. Ali, o líder do MTST de então sugeriu que a saída era ‘pela esquerda e não com Cunha e Renan’. Disse que os ajustes deveriam ser feitos contra a ‘casa grande’ e não contra os programas sociais e o povo pobre. Era uma conjuntura de profunda ofensiva da direita e ele fez exigências pela esquerda ao governo naquele momento. Aparentemente ele se arrependeu e, dez anos depois, está na mesa com quem pratica na atualidade as políticas que ele criticava. (2)
Não nos enganemos que Boulos e seus seguidores estão adaptados e migraram para a conciliação de classes, muito além de uma tática pontual. Se calam ante o arcabouço fiscal, ao pagamento da dívida pública, a destruição ambiental e muitas vezes entregam dedos e anéis ao Centrão.
Boulos, Cargill e a luta dos povos originários
Em poucos meses, Boulos teve enfrentamento com as comunidades indígenas do Tapajós. Quando fechávamos este texto houve uma grande vitória da mobilização dos povos originários que ocuparam a Cargill por cerca de um mês. Quase duas mil pessoas, maioria indígenas das regiões do Médio, Alto e Baixo Tapajós, participaram de tal luta que teve projeção nacional e obrigou o governo Lula a revogar o Decreto 12.600/2025, que incluía os rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização, concedendo a empresas privadas a realização de dragagem e controle de tráfego de embarcações nessas áreas. Não era apenas a defesa do modal de transporte hidroviário – melhor ambientalmente – como sugeriu o Ministro no podcast, reduzindo a inteligência alheia. Saudamos a vitória expressiva conseguida por uma luta justa e arrancada contra aqueles que priorizam as boas relações com o agronegócio.
Mas qual lado Boulos está? Da privatização ou dos povos originários? Caso efetivamente privatizada, a área estaria fragilizada, bem como a proteção de territórios indígenas e isso ameaça práticas desses povos e a biodiversidade. Tal risco continua, a luta deve ser permanente.
Este foi o primeiro enfrentamento efetivo do Ministro contra um movimento social. Na entrevista, chegou a dizer que os indígenas não estavam ‘bem informados’ e elogiou a proposta privatizadora do Decreto 12.600 (2). Neste caso, para ele, não há contradições e para defender o lado em que ele está na atualidade é ‘tudo ou nada’. É o preço da adaptação, caro Ministro, e tal contradição é apenas a primeira de outras que devem surgir, pois o seu governo vai se chocar com movimentos sociais e pautas históricas dos trabalhadores.
Não adianta apenas falar da árvore do 6×1 e ignorar a floresta da conciliação/colaboração de classes e do social liberalismo assumido agora pelo ex-militante do MTST: quem faz discurso de meias verdades acaba pagando por isso. Enfim, a vida é dura, Ministro Boulos.
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Assista a entrevista em https://www.youtube.com/watch?v=-x_cdGCnq-A&t=2076s.
Assista o discurso em https://www.youtube.com/watch?v=jiZQC2Oyu-Y&t=357s.
Leia o Decreto aqui: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/2025/decreto-12600-28-agosto-2025-797894-publicacaooriginal-176238-pe.html.



