Mônica Buarque
Professora da Faetec e militante da Emancipação Socialista
A tortura pela qual passou o cão comunitário Orelha em Praia Brava, região nobre de Florianópolis no início de 2026 – aparentemente – uniu pessoas de direita e de esquerda, religiosas ou não, em comoção contra a impunidade dos quatro adolescentes da elite local responsáveis pela morte do animal. Um debate em torno da redução da maioridade penal se acendeu. Os jovens envolvidos são brancos e estudantes de uma instituição confessional jesuíta, o Colégio Catarinense e a polícia só foi notificada no dia 16 de janeiro, apesar do cão ter sido eutanasiado 12 dias antes.
Este é mais um caso em que a pressão do poder econômico pesa sobre os órgãos do Estado provando que os olhos da justiça burguesa continuam bem abertos e atentos ao “você sabe com que está falando?” típico da hierarquia social brasileira. Paradoxalmente, expoentes do campo progressista alegam que, diariamente, crianças e jovens pobres são mortos, violentados e passam fome sem suas histórias repercutirem tanto. O episódio contra o cão Orelha, no entanto, não é supra religioso nem pluriclassista. É mais um triste capítulo da opressão de classe no Brasil.
Sua denúncia não diz respeito apenas aos animais e a seus protetores, mas a seres humanos hierarquizados e socializados de modos diversos para ocupar papéis diferentes na sociedade de maneira a mantê-la desigual. O desenrolar deste caso corroborará o modus operandi capitalista. A defesa da redução da maioridade penal expressa o recrudescimento da política de tolerância zero praticada a nível municipal e estadual pelo país afora contra indígenas, negros, pessoas lgbtqiapn+, mulheres e jovens pobres. Por outro lado, ao serem feitas também de vítimas, as famílias dos autores do crime ganham o jogo, como é de se esperar para famílias burguesas.
Os desafios da internet e a barbárie fascista
Na deep web e na plataforma Discord meninos e meninas da burguesia apertam o pescoço com cintos até sentirem um torpor e desmaiar ou inalam desodorantes em desafios que viralizam nos trends (tendências). Isolados em seus quartos, muitos destes perdem a vida enquanto centenas assistem à gravação ao vivo.
Estes desafios também são responsáveis pela morte de moradores de rua que têm seus corpos queimados e pela tortura de cães e gatos. Conteúdo de abuso sexual de crianças e adolescentes circula livremente pelo ciberespaço. As cenas são filmadas para deleite do público. Há indícios que a imolação de Orelha foi mais uma barbárie das redes sociais.
A brutalidade dos filhos dos “cidadãos de bem”, porém, é anterior à disseminação das redes sociais. Em abril de 1997, um grupo, entre 17 e 19 anos, chocou o país ao incendiar e matar por prazer um homem que dormia em um banco em um ponto de ônibus de Brasília. Ao ficarem sabendo que a pessoa queimada viva era Galdino Pataxó, um indígena que fora à capital federal para participar de uma mobilização com seu povo e não conseguiu entrar no local onde estava hospedado de madrugada, os rapazes responderam que acharam que ele fosse um mendigo. De famílias abastadas, eles seguiram suas vidas e se tornaram servidores públicos.
Thor, filho do empresário Eike Batista, em março de 2012, atropelou e matou um ciclista. A justiça inocentou o jovem, apesar das inúmeras infrações cometidas por ele ao volante. Um inquérito concluiu que a vítima ingerira álcool, o que a impossibilitaria de dirigir qualquer veículo automotor. Thor estava a 135 km/h quando atingiu o ciclista.
Estes fatos não estão sendo relacionados para clamar pela piedade da justiça burguesa em defender Orelha e as milhares de vítimas animais. O objetivo aqui é analisar a encruzilhada em que a classe trabalhadora se encontra ao – simplesmente – exigir justiça. Na enorme manifestação ocorrida pela manhã do dia 1° de fevereiro na Avenida Paulista, em São Paulo, o delegado Bruno Lima, protetor de animais e deputado federal pelo PP, fez um discurso defendendo a redução da maioridade penal.
A impunidade, porém, não é um problema de idade, mas de classe. Na chacina de 121 pessoas ocorrida nos Complexos da Penha e do Alemão, Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025, jovens foram executados sem prisão e processo a ser respondido.
Quem pode respeitar vidas no capitalismo e a vida de quem pode ser respeitada?
Há maus-tratos contra os animais em áreas carentes. Pessoas que sofrem opressões em atividades laborais precarizadas ou lidando com ordens de superiores. Algo como o dilema da família protagonista do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos. No livro, a fome arrasa o sertão. Em um gesto desesperado, Fabiano e os seus decidem alimentar-se do papagaio. A cachorra Baleia é apedrejada, não por ódio, mas para que não seja mais uma boca faminta.
Nas periferias, equinos velhos ou doentes que já não servem para trabalhar são abandonados para morrer sem alimentação ou água. Seria muito simples considerarmos que o cuidado com os animais é uma conquista da ascensão social. Ainda que fosse, o abandono de cavalos e jumentos idosos escancara a face hostil das revoluções industriais que redundaram no capitalismo. Estes animais puxam carroças em locais onde a população não possui carros ou caminhões para transportar seus produtos. Onde o acesso a ônibus e trem não se dá a contento e é oneroso para a população.
Acabar com maus-tratos e abandono de animais domésticos será fruto de uma nova sociabilidade. A produção industrial de carne, que tortura seres por todas as suas existências, deverá ser abolida em uma sociedade socialista onde a comida seja destinada a alimentar a população conforme suas necessidades e não para gerar lucro.
A submissão dos animais ao sistema é parte da mesma lógica que diferencia os seres humanos. Assim, o martírio dos palestinos em Gaza é tolerado pois eles são tratados como terroristas pela mídia. A miséria de crianças em países em guerra da África é normalizada poque lá há conflitos étnicos. Jovens negros que morrem de “bala perdida” no Rio de Janeiro são lembrados pontualmente.
A tortura de Orelha, como a da cadela Manchinha, espancada por um funcionário do supermercado Carrefour de Osasco em 2018, põe a nu o quanto os poderosos podem fazer o que querem com todos os tipos de vidas. Em 2019, um rapaz negro foi estrangulado e morto por um segurança no Carrefour da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. O mercado desvencilhou-se de qualquer culpa nos dois assassinatos.
A concepção fascista de sociedade é coadunada com a máxima “as minorias devem se curvar à maioria” tantas vezes repetida pelo ex-presidente Bolsonaro. Ele deu voz àqueles que julgam que os vulneráveis valem menos por serem feios (como a estética nazista considerava judeus e deficientes) e que os desviantes devem ser corrigidos mesmo que isso custe sua saúde física e mental. Aos jovens pobres é pedida a punição máxima por seus delitos (tráfico de drogas, furtos e outros de causas sociais). Entretanto, os jovens burgueses são infantilizados e têm sempre sua má conduta relativizada, o que já está acontecendo como caso Orelha, inclusive pelo ocultamento de provas.
Só a justiça da classe trabalhadora poderá trazer a verdadeira paz para a humanidade e o respeito aos seres do planeta integralmente. O fascismo espalha seus tentáculos em todas as seções da vida social. Por isso a revolução deverá ser não apenas econômica, mas também cultural.
Não precisamos de um mundo sem cães comunitários como Orelha. Precisamos de um mundo sem jovens que possam tudo e outros que devam muito. Sem discurso autoritário e apologia à violência. Isso só será possível quando superarmos o capitalismo.



