O regime iraniano está enfrentando massivos protestos e a resposta foi uma violenta repressão com milhares de mortos (há informações com até 6 mil) e mais de 10 mil presos. Nesse momento, há uma diminuição da intensidade e indica que o regime retomou o controle da situação, mas as contradições e a raiva das pessoas permanecem.
De forma sumária, o regime chegou a condenar manifestantes a pena de morte, mas com a pressão internacional, declarou que suspendeu as execuções. No entanto, não há nenhuma garantia de essa informação ser verdadeira, principalmente pelo histórico de como a “República Islâmica” trata a classe trabalhadora.
Além das questões internas, há outros elementos importantes para compreender esse processo, como os interesses imperialistas na região, sobretudo Estados Unidos e Israel.
A crise econômica e o bloqueio econômico
O estopim dos protestos em 28 de dezembro foi a desvalorização da moeda local, o Rial, que caiu para o nível mais baixo em relação ao dólar e elevou a inflação. Foi essa situação que motivou lojistas de Teerã protestar e logo se espalhou pelo país, um dos maiores desde o movimento Mulher, Vida e Liberdade de 2022.
Esse foi o estopim, mas as causas são mais profundas e estão relacionadas às decisões internas e as consequências do bloqueio e sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. Ou seja, a causa é a situação econômica.
Internamente essa crise é resultado das políticas neoliberais adotadas pelo governo, como as privatizações, a formação de grandes monopólios e o sistema de importação controlado por grupos que terminam determinando os preços e a distribuição desses produtos. Medidas que geraram inflação, aumento do desemprego e queda do salário.
A inflação passou de 40% (só de alimentos foi de 70%) e isso significa que, em um nível diário, os preços aumentam todos os dias, afetando a todos, mas particularmente a classe trabalhadora e os mais pobres. Para se ter ideia do tamanho da crise, em 2024, havia mais de 12.000 pessoas presas por dívidas que não conseguiram pagá-las.
Outro fator importante é a política dos Estados Unidos de bloqueio e sanções econômicas. A lógica desses bloqueios é causar uma crise econômica, privar o povo até mesmo do básico, até se revoltarem contra o governo, ou seja, não é um bloqueio contra o governo ou os ricos, mas contra os pobres.
Com esse bloqueio, o Irã não pode vender seu petróleo -sua principal fonte de riqueza- e quando consegue vender, é por preços abaixo do valor do mercado. Também não consegue importar muitos produtos porque eles são negociados em dólares e os Estados Unidos também sancionam os bancos e outras empresas que negociarem com o Irã. Não por acaso, a inflação começou a subir em 2018, ano que Trump apertou as sanções contra o Irã.
Outro elemento são os danos à infraestrutura (principalmente de energia) do país causados pelos bombardeios israelenses e estadunidense, levando a desabastecimentos. Mais uma vez é a classe trabalhadora que mais sofre as consequências. E depois chegam com o bla bla de defender o povo e a democracia.
O cinismo do sionismo e para onde caminha essa situação?
Ninguém pode ter certeza do desfecho dessas mobilizações. Até agora o regime se mantendo, mas está muito desgastado e com o poder abalado, no entanto, mostrou que ainda contar com alguma base social e organizou importantes manifestações de apoio. De outro lado, a oposição burguesa não conseguiu impor a volta da Monarquia e a mobilização também não teve forças para construir uma saída alternativa ao regime e à Monarquia.
A oposição liderada Reza Pahlavi, filho de Mohammad Reza Pahlavi (ditador sanguinário de 1953 até 1979 que reprimiu e explorou o povo por décadas até sua queda em 1979) e vive num exílio dourado nos Estados Unidos, conseguiu construir uma rede de apoio ao seu retorno. Nas manifestações se ouvia “volta Monarquia”, mas não era majoritário, até porque ainda está na memória dos iranianos o significado dessa ditadura.
Estados Unidos e Israel também trabalham diretamente pela queda do regime e subir um governo mais alinhado politicamente. Chama a atenção o cinismo de Trump, dizendo defender a democracia e as mobilizações, mas ele mesmo acabou de enviar 400 refugiados iranianos de volta ao Irã. Enquanto faz esse discurso “para inglês ver”, apoia o assassinato de uma mulher pela polícia só por questionar a ação policial contra imigrantes, reprime o povo que diz representar, se orgulha de atacar a Venezuela, participou diretamente do genocídio do povo palestino e mantém milhares de imigrantes presos. Agora suas garras estão voltadas para a anexação da Groelândia. Sua única preocupação é defender os interesses econômicos.
Israel, sócio menor do imperialismo estadunidense, também atua para interferir nessas mobilizações e derrubar o regime. Os constantes assassinatos de cientistas iranianos e de membros do Hamas em território iraniano, os bombardeios contra instalações de energia e a infiltração de agentes do Mossad (serviço secreto israelense) são intervenções reconhecidas publicamente pelo governo sionista. Ano passado o jornal Haaretz mostrou que Israel havia financiado campanhas linguísticas farsi para alimentar sentimentos monarquistas no Irã, procurando reforçar a imagem de Reza Pahlavi.
O genocídio do povo palestino, as bombas contra o Irã, Síria, Líbano e Iêmen demonstram os objetivos desse país: ampliar seu domínio bélico e opressão sobre os demais povos da região.
Trump, Israel e a antiga Monarquia estão interessados no petróleo do Irã. Agem de toda forma contra o povo iraniano.
As disputas no interior do movimento
Há um debate no interior da esquerda, dividida entre o apoio incondicional aos protestos e a defesa do regime.
De nossa parte, pensamos que não podemos reduzir esse debate a um “favor ou contra”. Como dissemos, é notório a presença de defensores da Monarquia, mas também havia estudantes gritando a abaixo a ditadura e a monarquia. Por isso é errado caracterizar esses protestos como “imperialistas”. Tratar assim é desconsiderar os vários problemas sociais, políticos e econômicos pelos quais o povo passa. É a condição de vida, que levou as pessoas para a rua.
Por outro lado, tratar essas mobilizações como totalmente progressistas e desconsiderando a presença de setores da direita, pode levar a uma política que, em última instância, é a mesma do imperialismo e do sionismo. Ou seja, é um processo contraditório com elementos progressistas, mas também com viés de direita como é o apoio à volta da monarquia.
No nosso modo de ver, é preciso considerar todas essas contradições e combinar a luta contra o imperialismo (e contra Israel), contra o regime dos aiatolás e contra a volta do regime monárquico. E o mais importante: a batalha para a classe trabalhadora se colocar como sujeito independente.
Assim, nossa posição é de apoio às mobilizações dos trabalhadores, mas contra os elementos reacionários que tentam liderar e desviar essa revolta para os interesses do imperialismo. Também nos colocamos contra o regime dos aiatolás, mas a partir de uma perspectiva de uma saída pela esquerda. Nessa oposição ao regime, também nos diferenciamos das forças reacionárias.
Os inimigos dos nossos inimigos não são necessariamente nossos amigos. Por isso que, diante de qualquer ataque dos Estados Unidos ou de Israel ao Irã, não temos dúvidas em defender a soberania do povo iraniano e a derrota dos Estados Unidos. Foi assim quando Israel e os Estados bombardearam as instalações nucleares e a infraestrutura iraniana, mas isso não significou apoiar o regime.
Não consideramos o regime iraniano como uma força anti-imperialista e defensor intransigente da luta palestina, o apoio se limita a palavras, sem ações concretas. Também se trata de um regime teocrático, dominado por uma casta religiosa com muitos privilégios. E por fim, se trata de uma ditadura que reprime fortemente a classe trabalhadora e oprime mulheres e a população LGBT+.
Qualquer dessas saídas não serve à classe trabalhadora e à juventude. É mudar para continuar tudo igual, é mudar para outro regime continuar reprimindo o povo iraniano.
Sobre as forças de esquerda no Irã não há muitas informações, mas destacamos o comunicado do Conselho de Cooperação das Forças de Esquerda e Comunistas do Irã que circulou nas redes sociais, do qual destacamos o trecho “aumento sem precedentes do valor do dólar e a inflação galopante como os motores da revolta, criticando um regime que “gastou milhares de milhões de dólares do dinheiro suado dos trabalhadores em guerras e na expansão das suas forças, enquanto impunha pobreza à população.”
No entanto, importante lembrar a maior parte da esquerda, entre elas, o Partido Comunista, apoiou Khomeini (que seria o Líder Supremo da República Islâmica), como uma força progressista e anti-imperialista e depois pagaram um preço caro porque também foram perseguidos.
A alternativa é a classe trabalhadora
Uma mudança de fato só pode ocorrer com o povo, que enfrenta essa brutal repressão, tomar o poder, tomar o controle do país e construir uma democracia dos de baixo, impulsionando o poder dos trabalhadores e dos pobres para derrotar o regime dos aiatolás e resistir ao avanço do imperialismo e do sionismo israelense.
Toda revolta dos de baixo tem o potencial de se transformar em processo revolucionário. Esse também tem, mesmo com essas contradições.
A classe trabalhadora teve pequena participação de forma organizada. Houve relatos de greve de motoristas de caminhão na cidade de Shiraz (província de Fars), um manifesto do sindicato dos motoristas de Teerã e de outras duas empresas de contratados na indústria de petróleo. A juventude universitária e os setores populares é que foram os principais protagonistas e bastante radicalizada.
Nesse sentido, é importante o conteúdo da nota do sindicato dos motoristas de ônibus de Teerã apoiando a luta, mas também se colocando contra a volta da antiga ditadura e da intervenção dos Estados Unidos. Diz a nota “solidariedade com as lutas populares contra a pobreza, o desemprego, a discriminação e a opressão, declaramos explicitamente nossa oposição a qualquer retorno a um passado dominado pela desigualdade, corrupção e injustiça” e mais a frente reforça que “O Sindicato também condena veementemente qualquer propaganda, justificativa ou apoio à intervenção militar de governos estrangeiros, incluindo os Estados Unidos e Israel”.
Essas ações independentes mostram as possibilidades de superar os obstáculos, mas ao fim, falta a presença da classe trabalhadora e a centralidade da luta dos trabalhadores e assim ir além dos “slogans” contra o autoritarismo e pelas liberdades culturais e exigir o fim das privatizações, do trabalho precário e da liberalização da economia, ou seja, juntar as demandas políticas do povo na rua com as econômicas dos trabalhadores.
– Libertação imediata e incondicional de todos os presos!
– Punição aos agentes do Estados que ordenaram e praticaram a morte de manifestantes!
– Fora Imperialismo e Israel do Irã!
– Abaixo o regime dos aiatolás e impedir o retorno da Monarquia, pois ambos são inimigos do povo iraniano.
– Todo poder à classe trabalhadora iraniana!



