“O objetivo final das proletárias não impede, é claro, o desejo que têm de melhorar a sua situação no âmbito do sistema burguês existente. Mas a realização desses desejos é constantemente prejudicada por obstáculos decorrentes da própria natureza do capitalismo. Uma mulher só poderá ter direitos iguais e ser verdadeiramente livre apenas em um mundo onde o trabalho é socializado, harmônico e justo.”
Kollontai, 1907.
O final de 2025 e início de 2026 foram marcados por muitos casos de feminicídio que repercutiram pelas mídias de alta circulação. O que essas grandes empresas de mídias não contam é que a violência contra mulher é um dos pilares de manutenção do sistema capitalista. Por isso, o 8 de março de 2026 também se apresenta não somente como uma data em memória das mulheres mortas da classe trabalhadora, mas como um grito de socorro e uma convocação urgente para que na luta de classes não aceitemos nem uma a menos.
Ao olharmos para os números absurdos de 2025, somos confrontadas com a face mais bárbara da realidade brasileira: o país encerrou o último ano consolidando o recorde de 1.518 feminicídios, significando que a cada seis horas uma mulher foi assassinada pelo simples fato de ser mulher.
Esses dados mantêm o Brasil ancorado na vergonhosa posição de quinto país do mundo que mais mata mulheres, sendo o primeiro no ranking de morte de mulheres trans, o que mantém a expectativa de vida destas em 34 anos. Evidenciam também o estágio atual que se encontra o capitalismo: no acirramento da barbárie.
Isso se dá tanto pela intensificação do machismo, do racismo e da homofobia com ascensão da política reacionária da extrema-direita que faz violentos ataques recorrentes aos direitos das mulheres, quanto pelos infindáveis retrocessos sociais-democratas que contribuem para a manutenção dessa realidade que explora, oprime e tira o direito à vida.
Na verdade, nessa sociedade dividida em classes toda essa barbárie também é utilizada absurdamente como tática eleitoreira em que governos da burguesia reprimem severamente quem se opõe à qualquer ação anticapitalista.
Lutar contra o Capitalismo é sobretudo lutar contra o patriarcado
O sistema capitalista necessita do patriarcado para manter a subordinação e aumentar a exploração feminina, para garantir a tripla jornada de trabalho, os baixos salários, empregos preconizados, a responsabilização pela criação e educação dos filhos e a manutenção do lar.
Quando as mulheres tentam romper o ciclo da dependência econômica ou afetiva, o homens intensificam as várias formas de violências do sistema capitalista e ambos não aceitam a autonomia dos corpos que explora de diferentes formas. O feminicídio tem sido entendido, portanto, como o ponto final de uma linha de opressão, repressão e exploração.
A realidade de 2025 mostrou que somente o endurecimento de penas, embora necessário, jamais combate a impunidade e jamais ataca a raiz do problema. Como dissemos, a intensificação da exploração e da opressão são necessárias para a gerência da crise do capital.
Nessa realidade, a burguesia com seus governos seguem lutando para manter os altos lucros e o Estado segue funcionando para isso com um ajuste fiscal que arranca nossos direitos, com o pagamento de uma dívida pública que não é nossa e sem medidas que favoreçam as vidas das mulheres da classe trabalhadora.
Assim, não há para as mulheres da classe trabalhadora, sequer, o direto à proteção da vida. O orçamento público é drenado por todos os governos para favorecer todos os setores da burguesia, deixando de criar ou expandir as redes de proteção, casas-abrigo e os centros de referência para socorrer as mulheres violentadas mesmo com o aumento vertiginoso dos feminicídios.
As pautas das mulheres é a de toda classe trabalhadora
A intensificação da exploração, da opressão e as várias formas de violência buscam também manter a dependência econômica, que é um cárcere para as mulheres da classe trabalhadora.
Por isso, as lutas pelo fim da escala 6×1, pela redução da jornada de trabalho, por direitos trabalhistas, pelos melhores salários estão intrinsecamente relacionadas à sobrevivência da mulher trabalhadora, ao direito ao tempo, à integridade física e mental.
Neste 2026, reafirmamos que a luta contra o feminicídio é indissociável da luta antirracista e anticapitalista. As estatísticas seguem apontando que são as mulheres negras e periféricas as maiores vítimas da negligência estatal e da violência direta.
A emancipação das mulheres exige uma profunda transformação dessa sociedade que mercantiliza a vida, que não aceita, sequer, a socialização das tarefas domésticas entre todos e todas, das creches e lavanderias públicas, dos cuidados e que, sequer, permite uma responsabilidade coletiva.
Somente derrubando as estruturas que lucram com a exploração, opressão e com todas essas violências poderemos transformar esta realidade no país, que é o quinto que mais mata mulheres, e essa realidade que é mundial!
Assim, não iremos sucumbir e caminharemos em luta até que a vida valha mais do que a propriedade e o lucro.
Essa luta, no entanto, não pautamos no feminismo liberal, aliado ao capitalismo, que entende apenas a importância da ascensão de mulheres ao topo da pirâmide exploradora. É difícil apontar um único evento na história da luta das mulheres proletárias para melhorar suas condições materiais em que o movimento feminista burguês tenha contribuído significativamente, como escreve a revolucionária Alexandra Kollontai. Reafirmamos, portanto, que cada avanço no padrão de vida e cada direito arrancado do Estado são resultados dos esforços da classe trabalhadora em geral e principalmente das mulheres proletárias. A história da luta por uma vida digna não se separa da história do proletariado pela sua própria libertação; lutar contra o feminicídio é também lutar contra esse sistema que transforma a força de trabalho em mercadoria e a vida da mulher em um recurso descartável.
Por fim, que o 8 de março e as lutas das mulheres da classe trabalhadora rompam esses limites e imponham que a mulher seja plena em sua individualidade e em sua coletividade classista, que possam abrir os caminhos para a destruição da estrutura que busca nos reduzir à mercadoria. E que possamos impedir como todas as forças que nenhuma de nós seja enterrada sob o peso da tradição patriarcal, do lucro desenfreado e do capital. A luta contra o feminicídio deve ser anticapitalista! Não seremos livres sob um sistema que comercializa nossa vida!



