Palestinos, iranianos, sírios, libaneses, iraquianos, iemenitas ou líbios convivem diariamente com ameaças constantes de bombas caindo sobre suas cabeças ou mesmo com os pesados bombardeios que Estados Unidos e Israel despejam sobre essas populações.
Estão à frente desses massacres Trump dos Estados Unidos e Netanyahu de Israel e contam com apoio da maioria dos governos dos demais países imperialistas, como Inglaterra e Alemanha. Os dois governantes, em especial, merecem todo o ódio que as vítimas sentem por eles, pela guerra, pelo sofrimento e pelas milhares de mortes que causam todos os dias. Mulheres, idosos e crianças são seus alvos preferidos.
Mas, não é possível explicar essas guerras como se fosse uma vontade de Trump e de Netanyahou. A causa principal para essas guerras está na crise pela qual passa o capitalismo e em especial a crise econômica dos Estados Unidos.
As causas da ação militar contra o Irã são econômicas e para os Estados Unidos dominar a região
Se em outros momentos da história, os Estados Unidos eram uma hegemonia global, controlando ou influenciando a maior parte do mercado mundial, inclusive o bloco imperialista (e todos aceitavam passivamente esse domínio), essa não é mais a realidade, pois a crise estrutural do capital acirrou a disputa entre os capitalistas e também surgiram novos atores no mercado, principalmente a China, um forte concorrente dos Estados Unidos e que também não sucumbe às pressões estadunidenses.
Enfrentar essa crise exige recuperar a sua força no mercado mundial, espaço onde a riqueza se realiza. E em toda disputa a força persuasiva ou mesmo militar são fundamentais e, como os Estados Unidos não têm a mesma hegemonia política, o governo Trump se apoia em uma ofensiva mundial, tanto no plano econômico (que se mostrou insuficiente e não teve o apoio da burguesia), quanto no militar, como demonstram a invasão da Venezuela e a participação cada vez maior no Oriente Médio.
Então essa é a primeira e importante conclusão: as ações militares dos Estados Unidos (no Oriente Médio, com a ajuda de Israel) não são para “levar a democracia”, mas para controlar o mercado e a riqueza desses países. E nesse sentido devemos considerar que Venezuela e Irã são grandes produtores de petróleo, sem falar nos vários minérios que o país sul-americano também tem.
A segunda é que, como quase todas, essa guerra, é a “continuação da política por outros meios” (Clausewitz). Mesmo sendo capitalistas e extremamente repressores contra o povo, os governos capitalistas da Venezuela e do Irã são relativamente independentes do imperialismo, não por serem nacionalistas revolucionários, mas pela defesa dos interesses das suas burguesias nacionais, os quais o imperialismo não quer preservar. É essa contradição que Trump quer resolver pela ação militar, uma vez que não conseguiu pela força política. E é mais um elemento que coloca por terra o discurso de Trump de defesa da democracia. Como a lógica do imperialismo é a dominação sobre os países periféricos, torna-se inadmissível a existência de países independentes, mesmo que relativamente.
Isso leva à terceira explicação, a tentativa de recuperar a hegemonia política global utilizando o poderio militar, o qual serve para massacrar a resistência mais fraca e ao mesmo tempo serve de ameaça aos demais. O problema é que a imposição pela força não substitui a necessidade da hegemonia política e cultural no poder imperialista, pelo contrário, cria mais contradições no lugar de soluções.
Todos sabem dessas limitações e aqui entra a aliança e o apoio estadunidense a Israel. A política de fortalecer Israel como um “imperialismo regional” – uma força militar (odiada pelas populações locais) para atuar por procuração dos Estados Unidos nessa importante região econômica para o capital estadunidense – visa ter o Estado israelense como uma “base militar-política” na região pra defesa dos interesses do imperialismo nessa região. Nesse sentido, pelo histórico violento do sionismo, não há espaço para hegemonia política de Israel na região, ou seja, qualquer relação de poder de Israel sobre os demais, só pode ocorrer pela força.
Como parte desse plano, em 2020 o “governo Trump 1” construiu um acordo chamado “Escudo de Abraão”, uma aliança liderada por Israel e as monarquias ditatoriais dos Emirados Árabes e Bahrein (depois se juntou Sudão e Marrocos e há negociações com outros governos como o sírio) e do qual consta o objetivo explícito a derrota do Irã. Esse acordo também explica a total omissão dos governos árabes em relação ao genocídio do povo palestino.
Assim, longe de defender democracia (até porque Trump apoia ditaduras sangrentas como a da Arábia Saudita) ou os direitos do povo iraniano, os Estados Unidos querem um governo submisso, mesmo mantendo o regime com um novo Aiatolá. Foi assim na Venezuela.
Por fim, mas não menos importante, as recentes decisões do parlamento, o apoio da burguesia e da grande mídia estadunidenses (bem como em Israel) servem como demonstração de que Trump não age pelo ego, mas em comum acordo com a classe dominante e as necessidades econômicas. Atribuir essas atrocidades só ao indivíduo Trump, como faz a grande mídia, é esconder que as guerras são fundamentais para a reprodução do capital como um todo. Ou seja, se não fosse Trump, seria outro.
Defendemos o povo iraniano contra os Estados Unidos e Israel! Que a classe trabalhadora iraniana seja a direção política da luta anti-imperialista em substituição ao regime dos aitolás!
Num contexto mundial de uma profunda crise da alternativa socialista, na qual a classe trabalhadora mundial – não só a iraniana- não enxerga alternativas por fora do capitalismo, o povo iraniano fica numa “sinuca de bico”, espremido entre um regime ditatorial e opressivo, a volta da ditadura dos Xás Pahlavi (monarquia que deu golpe em 1953 com apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra contra o governo nacionalista Mohammad Mossadegh) e o domínio dos Estados Unidos-Israel.
Ressaltamos, ainda assim, que nós caracterizamos o atual regime iraniano como uma ditadura fundamentalista e que aplica uma política econômica de arrocho contra a classe trabalhadora com empregos precarizados, privatizando vários serviços públicos. Hoje no Irã, a riqueza está cada vez mais concentrada em poucas mãos. O resultado é o aumento da miséria social de vários setores da sociedade iraniana.
Esse regime também oprime o povo com muita violência. O símbolo dessa violência foi a prisão e assassinato de Jina Mahsa Amini pela polícia da moralidade em 2022 por se recusar a usar o hijab, um símbolo do controle e opressão sobre as mulheres. Como repúdio a essa morte, milhares saíram às ruas, num forte protesto contra os Aiatolás que responderam com uma violenta repressão. Essa foi a mesma resposta do regime contra as manifestações desse ano contra a carestia, matando milhares de pessoas.
Outro interessado na queda do regime são os monarquistas, regime derrubado pela Revolução de 1979. Reza Pahlavi, filho do Xá Mohammad Reza Pahlavi, vive nos Estados Unidos e ainda mantem influência em grupos minoritários no país que atuam para dirigir as manifestações, visando a volta ao poder. Alheios ao sofrimento do povo, apoiam as bombas jogadas pelos Estados Unidos e Israel e querem trocar a Guarda Revolucionária Islâmica do atual regime pela violenta polícia secreta do antigo regime monárquico. Seria a volta ao passado.
Outras forças que buscam controlar o país, como expusemos acima, são os Estados Unidos e Israel, regimes tão violentos quanto o dos Aiatolás e da antiga Monarquia e que, por óbvio, não representam nenhuma alternativa para o povo iraniano.
Mesmo com essa análise negativa do regime iraniano, é importante frisar que hoje a luta no país asiático é hierarquizada pela expulsão e derrota dos agressores imperialistas ianques e sionistas. A superação do regime dos aiatolás por uma alternativa da classe trabalhadora precisa ser construída no curso da luta anti-imperialista.
Entretanto, essa segue sendo a maior contradição desse processo: a ausência da classe trabalhadora, especialmente a petroleira, na luta contra o regime. Os petroleiros iranianos têm uma forte tradição de luta e cumpriram um papel importante da derrubada da Monarquia. É a retomada dessa força que pode direcionar a luta para uma saída classista, sem Aiatolás, imperialismo e monarquia.
A indústria militar lucra e muito com as guerras
A crítica às ações militares também deve incorporar a crítica ao complexo industrial da guerra. A ofensiva militar dos Estados Unidos também atende interesses do complexo militar. Um setor industrial altamente desenvolvido e com alta produtividade precisa incentivar o consumo dessa mercadoria que no caso é a realização das guerras.
E sabemos que essa relação Estado-complexo militar é muito forte, principalmente nos países imperialistas, exercendo influência direta sobre os governos e inclusive participando de decisões sobre as ações militares.
Como o capitalismo tem como um dos seus fundamentos a competição entre Estados e grupos econômicos capitalistas e a possibilidade de uma guerra sempre está colocada na mesa, todos os países buscam reforçar seu aparato bélico, em um movimento que parece não ter fim.
Nesses ataques ao Irã, por dia, são gastos cerca de 890 milhões de dólares só pelos Estados Unidos. É só fazer a conta para saber quanto dinheiro (e lucro das empresas de armas) se gasta. O orçamento dos Estados Unidos nesse ano é US$ 831,5 bilhões (ou mais de 4,3 trilhões de reais). Israel tem orçamento de US$ 34,6 bilhões (179,9 bilhões de reais). Já o orçamento do Irã é de US$ 9,23 bilhões (ou 47,9 bilhões de reais).
Quando vemos globalmente os gastos militares no mundo alcançaram cerca de US$ 2,63 trilhões em 2025, em reais são quase 14 trilhões. Se a riqueza fosse apropriada por toda a sociedade, com todo esse dinheiro nenhuma pessoa no mundo passaria fome, não moraria na rua, teria todo serviço público necessário e ainda teríamos uma jornada de trabalho bem pequena. Mais uma prova de que o capitalismo mata.
Outra questão que aprofundaremos em uma próximo texto é que esse aparato bélico que está sendo usado pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã e o Líbano pode até derrotá-los, mas a escalada crescente da utilização do mesmo pode também exterminar a humanidade.



