Enquanto a grande mídia e os holofotes da COP30 se voltavam para os pavilhões e as negociações entre diplomatas, a verdadeira ação política acontecia nas trincheiras. A capital paraense viveu um novembro histórico com a Marcha dos Povos Indígenas, que tomou as avenidas com mais de 5 mil guerreiros e guerreiras de povos como Munduruku, Xikrin, Tupinambá e Karipuna. A “Aldeia COP”, montada na UFPA, não foi apenas um espaço de acolhimento, mas um território de articulação política que denunciou o paradoxo da conferência: falar em salvar o clima enquanto se entrega os rios à iniciativa privada.
Mas foi no oeste do Pará, em Santarém, que a luta atingiu seu ponto mais alto e didático de enfrentamento para a classe trabalhadora. Durante 33 dias, cerca de 2 mil indígenas de 14 povos do Baixo Tapajós ocuparam o terminal da Cargill, uma das maiores multinacionais do agronegócio do mundo.
O estopim foi o Decreto nº 12.600/2025, assinado pelo governo Lula, que incluía os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Na prática, a medida entregava à iniciativa privada – com a Cargill na linha de frente – o controle da dragagem e do tráfego de embarcações em mais de 2 mil quilômetros de rios. Para o capital, trata-se de “logística” e “escoamento da safra”. Para os povos originários, trata-se da vida, da reprodução física e cultural, da própria possibilidade de existir.
A radicalidade como método
Diante da intransigência governamental e da força do lobby do agro, os indígenas não optaram pelo caminho da negociação institucional nos gabinetes. Foram para o confronto direto. Invadiram o terminal da empresa estadunidense, paralisaram as operações e desafiaram o poder judiciário e o executivo. O grito era claro: “Nossos rios não estão à venda”.
Esta ocupação não foi um mero ato simbólico. Foi uma ação direta que atingiu o coração do lucro do agronegócio. A Cargill, que lucra bilhões destruindo o meio ambiente e explorando o trabalho, viu sua engrenagem parar. E o resultado foi a altura do enfrentamento: no dia 23 de fevereiro de 2026, os ministros Guilherme Boulos e Sônia Guajajara anunciaram a revogação do decreto.
O que isso nos ensina?
A luta dos povos indígenas no Pará recoloca para a esquerda uma lição fundamental: o problema indígena é, essencialmente, um problema econômico e de propriedade da terra. Não se resolve com assistencialismo. Somente políticas de reparação que enfrentem o capital podem trazer mudanças favoráveis aos povos originários. É preciso, portanto, avançar na luta e pautar a questão indígena reivindicando primordialmente a devolução dos territórios tomados pelo agro e a proteção dos mesmos.
A vitória no Tapajós escancara a contradição do atual governo. Enquanto a Ministra Sônia Guajajara discursa na Zona Azul da ONU sobre protagonismo indígena, o mesmo governo tentava viabilizar a privatização dos rios para beneficiar o agro. A revogação não veio por bondade, mas pela força da ocupação.
Não se enganem: os mesmos ministros que hoje comemoram a vitória foram os mesmos que tentaram enfraquecer os lutadores do enfrentamento pregando “diálogo”, conciliação e paciência. A história mostra que, quando se negocia fraco, o capital avança. Foram as correntes no porto da Cargill, e não os discursos no palco da COP, que garantiram a vitória.
A unidade na luta
A mobilização no Pará também reforça a importância da unificação da luta entre a classe trabalhadora e os povos originários. A luta contra a privatização dos rios é a mesma luta do trabalhador urbano contra a carestia, contra a precarização e contra a exploração. O inimigo é o mesmo: o imperialismo, personificado na Cargill, e a burguesia associada ao latifúndio.
O movimento indígena tem mostrado que a defesa da floresta não é uma pauta “ambientalista” descolada da realidade de classes. É a defesa de um modo de vida comunitário que resiste ao avanço do capital, e que aponta para a possibilidade real de uma sociedade baseada em outras relações com a natureza e entre os seres humanos.
A vitória no Tapajós é um marco. Mas a luta continua. A bancada ruralista segue atacando direitos no Congresso, e a exploração mineral e o garimpo seguem envenenando os rios e os corpos. Que a lição dos guerreiros e guerreiras do Tapajós sirva de exemplo: a unidade, a organização e a radicalidade na ação direta é o único caminho para arrancar conquistas.
Como diz o movimento indígena: “O grito que vocês ouvem é para dizer ao mundo que a resposta somos nós”. A classe trabalhadora, a juventude e os explorados devem responder: estamos juntos nesta mesma luta.



