Coringa: a realidade perturbadora de um filme

Lucas Santana

Antes de tudo vale ressaltar que o filme Coringa nada tem a ver com a dualidade fictícia herói x vilão. Não iremos entrar nas questões técnicas do filme, estética, apenas fazer umas observações sobre as questões que o filme discute da realidade que vivemos hoje. Iremos dar SPOILER!

Já se sentiu esgotado por causa do trabalho ou teve alguma outra insatisfação que de alguma forma estava ligada a ele? O filme discute isso e seu impacto na vida do jovem Coringa que é um palhaço que trabalha para um patrão, não tem amigos, se sente impotente diante de tantas questões sociais que envolvem sua vida pessoal e a forma que a sociedade é. Há uma cena em que está na rua trabalhando com seu humor e em seguida um grupo de jovens o agride e quebra a placa informativa que utilizava no trabalho. O patrão desconta de seu salário. Quem nunca se sentiu injustiçado por um desconto escroto como esse? Sofreu duas violências. Uma, de pessoas que seriam mais ou menos da mesma classe social, de graça, por nada, apenas por corrupção dos jovens em meio a um local social violento. Depois a outra, a violência do patrão que já o extorque para caralho com sua exploração e ainda aplica um desconto desse, mesmo sabendo da violência que sofreu e que tem uma mãe doente que cuida sozinho.

Ele tem um problema psicológico também. Vejamos mais uma questão da nossa realidade: um grande número de pessoas hoje tem problemas psicológicos, que sim, tem suas raízes nas relações sociais que estão envolvidas, seja a questão do trabalho, as responsabilidades que carrega, a rede de amizades, etc. Quando ele está desesperado começa a gargalhar. Muitos o julgam por isso, num diário seu escreve: “a pior parte de ser doente mental é que as pessoas querem que você aja como se não fosse doente”.

Voltando ao trabalho, um colega lhe arruma uma arma, que aceita para poder se defender. No dia que é flagrado pelo patrão com a arma é demitido. Isso porque o colega oportunista lhe ofereceu arma para poder “fazer dinheiro” e acabou ferrando com o trabalho do Coringa. Essa arma depois é utilizada para matar os que de alguma forma o machucaram em algum momento. Os primeiros alvos foram agiotas, inclusive, foi muito oportuno serem os primeiros. Estava num trem e tinha uma moça em que esses três agiotas estavam perturbando, desesperado começou gargalhar e os três sujeitos vieram perturbá-lo por conta da risada o agredindo. Então, quando cai, apenas saca a arma e atira nos três e depois ainda dá o tiro por prazer. Quando o Coringa começa matar se sente mais leve, pois era como se livrar de um peso.

Outro alvo legítimo seu foi um apresentador de TV, que uma vez o chamou para participar do programa de humor e o tratou como objeto que rende piada, tirando sarro dele na TV. Depois foi para o programa novamente e dialogando sobre a merda que fez de mal para ele mesmo, PÁ! É difícil até imaginar que em algum momento quem assistiu não tenha se identificado, seja pelas mortes que executou (não todas), seja pelas humilhações e frustrações que passou.

Matou também o colega de trabalho que lhe forneceu a arma, numa visita que o alvo fez junto com outro colega de trabalho anão. Esse último ficou com medo pelo Coringa ter matado o outro colega, mas Coringa não fez o mesmo com ele porque nunca havia caçoado, nem mesmo tramado contra ele, nem mentido, ou seja, não fez nada de mal, então não foi um alvo. Sua mãe também virou alvo, pois mentiu a vida toda sobre ele e suas relações de família.

Quando o Coringa pega os seus primeiros alvos sai no jornal. Por não saberem de seu rosto exatamente criaram uma máscara de palhaço qualquer e adquire o visual pra si. Os primeiros alvos que eram os agiotas tiveram sua defesa nos jornais, os jornais burgueses falavam coisas como “como pode alguém matar o outro só porque teve sucesso na vida e ele não?”. Como seus alvos foram da alta classe, da socialite, ou melhor, da burguesia, manifestantes começaram a utilizar a máscara do Coringa como um símbolo de classe. O contexto é como o que passamos hoje de retirada de direitos trabalhistas, programas sociais e ataques a tudo que minimamente dá amparo à nossa vida.

Nessas de arrancar direitos, passava com uma psicóloga pública, que na maioria das vezes nem ao menos o conseguia entender e dar o diagnóstico correto ou ajudar de forma correta, tanto que em um momento ele entra em conflito com ela apontando que sempre fala para fazer a mesma coisa e se entupir de remédios. Depois nem ao menos essa psicóloga ele vai ter direito, pois cortaram a verba do Estado que ia para Saúde. E então cria mais uma preocupação, que é a de como pode ser atendido. Ele também para de tomar remédios porque sabe que as gargalhadas que dá são de desespero por todo o drama que viveu, não é algo biológico.

O filme discute os diversos problemas da atualidade, como a situação do Coringa cuidar da mãe doente sozinho, ocupado num trabalho precário sem direitos trabalhistas nenhum e extorquido pelo patrão, perde o emprego por culpa do colega de trabalho, não sabe sobre sua família, não tem amigos, tem problema psicológico, mais a violência física que por vezes é alvo. Tudo isso se acumula num caos. Mostra-se o conflito de classes no trabalho, e o conflito entre sujeitos que fazem parte da mesma classe social, principalmente porque a personagem não enxerga por essa questão de classe, mas apenas de como lhe faz mal, independente da classe social. A grande lição é que no meio do caos sem ter uma alternativa palpável de projeto de mudanças da realidade o mais provável é acontecer uma reação imediata para eliminar os problemas, que pode ser essa ação individualizada violenta sem a ótica de classe.

Os reacionários não temem esse filme por achar que as pessoas podem querer sair matando todo mundo, mas porque é um filme que dá base o suficiente para enxergar algumas questões fundamentais como a contradição entre burgueses e trabalhadores.