Dia parecia noite, mas era queimada

Meio ambiente, Bolsonaro e o agronegócio

Bolsonaro é um presidente ignorante na maioria de assuntos que circulam no cotidiano e os que conhece, a exemplo as milícias, são bem desprezíveis. Em relação à preservação do Meio Ambiente chegou a sugerir “fazer cocô dia sim, dia não”.

A razão desse desprezo pelo Meio Ambiente é a defesa do agronegócio, sua principal base de apoio político e de financiamento de sua campanha.

Em outros governos se o discurso era de preservação ambiental, com Bolsonaro há uma política de liberalização do desmatamento e de destruição de forma deliberada.

Lembremos que no primeiro momento havia dito sobre a extinção do Ministério do Meio ambiente mas, com a pressão manteve o ministério e nomeou Salles, ligado e financiado pelo agronegócio contra qualquer política de preservação ambiental.

Os outros setores da burguesia brasileira silenciam porque também se beneficiam financeiramente, pois os dólares que entram no país também servem para financiar e impulsionar a economia como comércio de máquina agrícolas, transporte, etc.

Bolsonaro também é aliado do agronegócio contra os povos da floresta. Em uma declaração recente (O Globo) foi enfático em dizer que esses povos atrapalham a produção: “Não pode continuar assim (…) Tem locais que, para produzir, você não vai produzir, porque não pode ir numa linha reta para exportar ou para vender, tem que fazer uma curva enorme para desviar de um quilombola, uma terra indígena, uma área proteção ambiental. Estão acabando com o Brasil”

Por trás dessa declaração há a dita questão de que esses povos não podem atrapalhar o desenvolvimento do país. Mas, que desenvolvimento?

Desenvolvimento capitalista com proteção ambiental?

Antes de tudo precisamos entender que o capitalismo em seu processo produtivo (agrário ou industrial) é um sistema que destrói e desrespeita totalmente a natureza e para ter lucro, acaba com o que tiver pela frente.

No caso do agronegócio, para aumentar a produção expande-se a área de plantação e é exatamente onde vem ocorrendo queimadas, desmatamentos e ainda os assassinatos de povos como indígenas, quilombolas, camponeses e também ativistas ambientais.

Entender o que vem ocorrendo é importante porque o centro do problema não pode ser apenas “a forma dos humanos agirem”, mas a forma de produzir no capitalismo.

O desenvolvimento no capitalismo é incompatível com a preservação ambiental. E no campo brasileiro essa questão é bem evidente, pois o agronegócio é o maior destruidor de recursos naturais no país. Para citar dois exemplos: o Brasil é o maior consumidor de agrotóxico do mundo, com mais de 500 mil toneladas por ano (O Globo, 2017). E a pecuária é responsável por 80% do desmatamento no país (Brasil de Fato).

Bolsonaro incentiva as queimadas e os desmatamentos

No dia 19 de agosto, em plena 3 horas da tarde, o céu em São Paulo escureceu repentinamente. Parecia noite, mas era um dos vários efeitos que as queimadas provocam.

Além da destruição em si, esse fenômeno provocou um amplo e interessante debate sobre a questão ambiental no país, ainda que sempre apareça de forma distorcida pois, a burguesia (principalmente o agronegócio), a grande imprensa e o governo não podem aprofundar esse debate.

As declarações de Bolsonaro contra a preservação do Meio Ambiente, de que as queimadas na Amazônia “são quase uma tradição”, da defesa de fazendeiros se armarem, a política de desmonte dos órgãos de fiscalização e as críticas às multas aplicadas pelo IBAMA atrapalham quem quer produzir. São também algumas das vezes que incentivou, mesmo que por vias indiretas, o desmatamento e as queimadas.

Muitas pessoas preferem atribuir esses episódios à “insanidade” de Bolsonaro, o que não explica as razões reais das queimadas e nem da destruição ambiental no país.

Imperialismo defendendo meio ambiente?

Quanto mais tempo o capitalismo continuar existindo mais vão aparecer pautas ambientais. E na busca de explicação desses problemas, a ideologia está presente.

De um lado a esquerda anticapitalista, com uma crítica radical relacionando a destruição ambiental ao desenvolvimento da produção capitalista e reivindica o ecossocialismo. Nesse campo estão vários movimentos sociais de defesa da terra e da vida de povos originários da floresta.

E de outro, os setores de direita (inclusive organizados em partidos) ligados à questão ambiental que culpabilizam o comportamento humano e propagam a ilusão reacionária de preservação ambiental no capitalismo. Marina Silva expressa bem essa posição.

Até mesmo a Noruega, por exemplo, como uma das maiores acionistas do mundo na atividade de mineração contamina territórios indígenas.

Com receio da pauta ser hegemonizada pela esquerda até mesmo governos imperialistas entraram na disputa política. Macron da França e Angela Merkel da Alemanha, os mesmos que jogam toneladas de bombas sobre povos rebelados, saíram defendendo a Amazônia e criticando o governo brasileiro como se não fizessem parte dos que destroem.

A luta ambiental é a luta contra o capitalismo

A produção capitalista tem uma lógica destrutiva que não pode ser alterada, é sua essência. Enquanto houver capitalismo haverá destruição ambiental.

Para nós a defesa do Meio Ambiente passa necessariamente por lutar contra o capitalismo e enfrentar a burguesia.

E como alternativa, além de eliminar a exploração, a propriedade privada, as classes e o Estado, uma sociedade socialista planeja seu funcionamento tendo as tecnologias desenvolvidas e utilizadas sem destruir a natureza.

Nesse processo também lutamos pelo direito dos povos indígenas e quilombolas terem seus territórios, pela desapropriação de propriedades que desmatam e destroem a natureza, pela Reforma Agrária sob controle dos trabalhadores para estruturar outras formas de produção de alimentos como produção orgânica, por exemplo, dentre outros pontos.

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