Rechaço ao Golpe de Estado na Bolívia

 

Começamos por afirmar que segue um Golpe de Estado na Bolívia. Reforçamos essa caracterização porque há um movimento, incluindo o governo Bolsonaro, que insiste em dizer que não houve Golpe. Os fatos demonstram a conspiração da direita e dos militares para tirarem Evo Morales da presidência do país. Deixar de falar na realização do segundo turno eleitoral somente reforça a ação golpista.

Que nome se dá quando: 1) cúpulas das Forças Armadas e da polícia forçam a renúncia de um presidente eleito? 2) um membro de forças paramilitares (Luis Camacho) de direita assume a direção de um movimento que incendeia sedes de sindicatos e ataca militantes do movimento social? 3) sem qualquer previsão legal, coloca-se na presidência uma senadora de um partido minoritário?

Uma breve cronologia

Desde a última eleição presidencial na Bolívia, terminou no último dia 20 de outubro, com a vitória e reeleição pelo quarto mandato de Evo Morales, a população começou uma jornada de manifestações de ruas em várias cidades, a favor e contra esse resultado.

A apuração dos votos ocorreu por dois sistemas, um mais rápido e preliminar e outro mais lento e definitivo com contagem voto a voto. Mas, os números das duas contagens divergiam. A contagem rápida, que apresentava uma possibilidade de um segundo turno, foi suspensa. Assim, ao finalizar a contagem lenta, Evo Morales saiu vencedor (com 47,07% dos votos) contra Carlos Mesa (com 36,51%) em primeiro turno, com vantagem superior a dez pontos percentuais.

Alguns grupos iniciaram protestos contra esse resultado, o que irradiou para todo o país em confrontos a favor do presidente com mais de três mortos e vários feridos. Os enfrentamentos apresentam alto nível de radicalidade com casas, de importantes lideranças do MAS (partido de Evo Morales), sendo incendiadas, inclusive da irmã do presidente. Diante de tamanha força, a própria Polícia Militar e as Forças Armadas se rebelaram para não reprimir as manifestações organizadas pela direita.

Evo Morales, pressionado, primeiro aceitou uma auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA) que afirmava irregularidades nas eleições. Depois, no dia 10 de novembro, anunciou que solicitaria novas eleições com renovação do quadro de funcionários do Superior Tribunal Eleitoral da Bolívia.

Mesmo com a promessa de novas eleições, a direita não só se manteve nas ruas como intensificou a violência com agressões a militantes do MAS e demais ativistas, além de incendiar casas de familiares de Evo Morales.

A partir do rompimento das Forças Armadas e de parte da Polícia Militar, sem sequer esboçar resistência ao avanço da direita, Evo Morales e todos em sua linha sucessória (vice-presidente, presidente do Senado, etc.) renunciaram e abriram espaço para a oposição de direita encontrar uma “saída institucional” para o golpe.

Nesse momento, a senadora Jeanine Añez, a segunda vice-presidente do Senado, sem contar com os votos do Congresso por falta de quórum, se autodeclarou Presidente da Bolívia.

Essa medida contou com o apoio de golpistas desde as Forças Armadas, que garantiram seu acesso ao Palácio Queimado, até Camacho que a acompanhou na tomada do Palácio. Ainda assim, dizer que “não houve golpe” é discurso de todo golpista e apoiadores, embora o golpe esteja escancarado.

Quais as intenções da direita?

Em vários países da América Latina temos presenciado a ação de grupos de direita (de vários matizes) para impedir ou derrubar governos que possuem algum programa social, mesmo quando atuam como gestores do capital, controlam e reprimem movimentos sociais. O caso da Bolívia demonstra bem essa situação.

Foi um dos países que mais cresceu na América do Sul no último período, média de 5% ao ano. Longe de ser um governo de esquerda, o modelo econômico de Morales abriu espaço para empresas multinacionais em vários ramos da economia, como o rico setor de gás e petróleo.

Vemos que a revolta contra Evo Morales – que está sendo dirigida por um setor empresarial reacionário, vinculado ao imperialismo e às igrejas neopentecostais – tem como objetivo oferecer melhores condições às multinacionais e ao imperialismo para atuarem mais livremente na região, principalmente nesse momento em que sofrem um revés com a derrota de Macri (na Argentina) e com as fortes mobilizações populares no Chile e no Equador.

Quem é e quem está com a direita golpista?

Mesmo sendo Carlos Mesa o principal candidato opositor a Evo Morales, a principal liderança das ações de direita é Luís Fernando Camacho: base da burguesia branca boliviana, historicamente racista e anti-indígena, empresário de Santa Cruz de la Sierra, província mais rica da Bolívia.

É um dos envolvidos no Panama Papers, documentos revelados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, sigla em inglês) que denunciam várias empresas e pessoas no mundo usuárias de empresas offshore em paraísos fiscais. Esse tipo de empresa permite esconder dinheiro proveniente de corrupção e atividades ilícitas sem identificar os verdadeiros donos.

Carlos Mesa, depois do golpe iniciado, foi preterido pelos golpistas por falta de confiança e direita passou a dizer “nem Evo, nem Mesa”, numa demonstração de que o resultado eleitoral era o que menos importava.

O golpe tem apoio dos principais empresários bolivianos, da OEA e, consequentemente, dos Estados Unidos que têm muitos interesses não somente nas riquezas minerais do país, mas, principalmente em ter mais um governo fiel no continente.

Vários áudios revelados pelo jornal boliviano “El Periódico” indicam a participação do governo estadunidense (com os senadores Ted Cruz, Bob Menéndez e Marco Rubio e diplomatas), do israelense e do governo de Bolsonaro através do Ministério das Relações Exteriores.

Luis Camacho, sem qualquer mandato popular, é o líder fundamentalista do Comitê Cívico de Santa Cruz, um fanático religioso católico, historicamente ligado a grupos paramilitares como “União Juvenil Cruceñista” (acusado de atos de racismo e discriminação contra indígenas, população LGBT e direitos das mulheres).

Também faz parte do golpe o CONADE (Comitê Nacional em Defesa da Democracia), entidade de direita em que democracia está somente no nome e que tem organizado as ações paramilitares contra os apoiadores de Evo Morales.

A ação das Forças Armadas e o apoio do alto comando da Polícia Militar aos atos da direita e as ações de repressão às manifestações contra o golpe para “garantir a estabilidade” são demonstrações da participação de militares no golpe.

O papel das Igrejas é outro elemento importante nesse processo

A cúpula da igreja católica, além de negar que se trata de golpe, também apoiou a ação das Forças Armadas na “defesa da propriedade privada” e silenciou diante da repressão e das mortes. Não por acaso, a senadora que se “autodeclarou” presidente agradeceu o apoio da igreja.

As igrejas evangélicas também cumprem papel decisivo no Golpe. Esse setor tem crescido muito na Bolívia e tem assumido importante papel político. Nessa eleição Chi Hyun Chung (coreano e admirador de Bolsonaro) obteve 8,77% dos votos, pelo Partido Democrata Cristão. Em uma de suas declarações absurdas chegou a dizer que as queimadas na Amazônia eram castigo divino por conta da existência de gays na Bolívia.

A participação das igrejas no golpe tem um outro elemento a ser considerado o de que Evo Morales – indígena Aimará, povo historicamente venerador da “deusa Pachamama” (mãe terra) – segundo orientação bíblica, é o presidente não cristão.

Rechaçar o golpe de Estado

É fundamental a mobilização de apoio e solidariedade ao povo boliviano no enfrentamento ao golpe reacionário. A vitória dos golpistas, além de significar um perigo para os bolivianos, também fortalece a direita e o imperialismo na América Latina.

Diante da renúncia de Evo Morales e que se recusou a resistir, cabe aos organismos da classe trabalhadora e dos camponeses assumir o controle do país, pois é a única classe que tem legitimidade por produzir a riqueza e fazer o país funcionar, enfrentar as Forças Armadas e a direita e organizar em cada local de trabalho os comitês de defesa. Essa é a única saída que pode interessar a classe trabalhadora, que precisa ser construída pela base dos movimentos.

Mesmo a COB (Central Obrera Bolviana), através de seu líder, chegou a pedir a renúncia de Morales ao declarar que “o povo está pedindo. Por isso pedimos ao presidente que reflita. Se é para o bem do país, se é pela saúde do país, que renuncie nosso presidente”.

Ao fecharmos essa Nota, a COB havia dado um prazo de 24 horas para se restabelecer a “ordem constitucional” sob ameaça de greve geral por tempo indeterminado. Aguardemos.

Sem confiar em Evo Morales

No entanto, Evo Morales tem preferido chamar a “pacificação do país” que significa, nesse momento, aceitar o governo golpista e as ações da direita. A paz que a burguesia pode oferecer aos trabalhadores é a paz dos cemitérios. Nada além disso.

Evo Morales tentou seu quarto mandato presidencial, manobrou o Tribunal Superior Eleitoral e a Suprema Corte, depois de ter perdido consulta popular para mudar a Constituição e garantir a candidatura. Medida não aprovada por um setor da classe trabalhadora.

No último período adotou postura mais à direita com o prestigio a Bolsonaro e a participação em sua posse e entregou Cesare Battisti para a polícia italiana.

De um lado, por conta principalmente dos recursos do gás vendido para outros países, adotou políticas públicas de ampliação do acesso à universidade, melhorou o sistema de Saúde pública e adotou políticas de distribuição de renda (similares ao Bolsa Família no Brasil). Por outro, não mexeu na estrutura econômica do país, garantindo os altos lucros das burguesias boliviana e multinacional que atuam no país.

Lutar contra o golpe não é apoio a Evo Morales. É uma luta para derrotar os golpistas e ao mesmo tempo para a construção de formas de organização da classe trabalhadora.

É urgente a unidade e a organização da resistência da classe trabalhadora contra o golpe com a mobilização de categorias como a de petroleiros, mineiros, desempregados, etc.

Governo Bolsonaro apoia o golpe

Sem a preocupação de esconder a sua participação na articulação do golpe, o governo Bolsonaro foi o primeiro a reconhecer o governo golpista. O reconhecimento não é por acaso.

Desde o mês de maio há contatos do reacionário e fundamentalista Ernesto Araújo (Ministro das Relações Exteriores do Brasil) com Luis Camacho, líder dos golpistas bolivianos.

– Denunciamos e repudiamos o apoio de Bolsonaro ao Golpe Militar que massacra o povo boliviano!

-Todo apoio ao povo boliviano! Pelo levante da classe trabalhadora operária e camponesa para o controle do país!