A crise no PSOL e suas alianças burguesas

O PSOL foi fundado em 2004, no segundo ano do primeiro governo Lula. Surgiu da expulsão de parlamentares do PT que, naquele momento, destoaram da linha adotada pelo partido, especialmente na votação da reforma da previdência proposta pelo PT e aprovada em 2003.

A criação do PSOL, à época, trouxe um debate na esquerda brasileira. Não havia dúvidas, reforçada pela Carta Aos Brasileiros, que Lula faria um governo burguês, mesmo que com grande popularidade, focado no assistencialismo alavancado pelo “boom” das commodities. O surgimento, então, de um novo partido “socialista” poderia significar um polo de resistência e organização da classe trabalhadora. Após intensos debates, rupturas nas organizações e experiências, foi fundado o PSOL com uma série de correntes advindas de outros partidos ou que atuavam independentemente.

Nos anos seguintes, apesar da atuação de correntes revolucionárias sinceras que atuavam e atuam dentro do partido, o foco eleitoral foi ganhando cada vez mais força, em detrimento da atuação na organização dos trabalhadores, em sindicatos ou de outras formas. Com alguns parlamentares eleitos, a pressão pelo foco da atuação política no parlamento se fortaleceu ainda mais: o objetivo passou a ser a eleição de vereadores, deputados, etc. Muitos desses candidatos, inclusive, sem vínculo nenhum com as lutas que a classe trabalhadora travava e travaria, mesmo que com um discurso progressista.

Em outros momentos o partido aumentou o seu arco de alianças para se coligar a partidos burgueses com um largo rol de ataques à classe trabalhadora: DEM e PSDB na prefeitura de Macapá (2013) e com o MDB em Belém. Apesar da resistência interna, o enfoque eleitoral e o distanciamento das necessidades da classe trabalhadora ganhava cada vez mais força.

Em 2017 foi aprovada a Reforma Política que diminuiu ainda mais os mecanismos democráticos. Dentre as cláusulas dessa reforma, estava a obrigatoriedade de os partidos terem uma quantidade mínima de votos ou deputados eleitos, a chamada “cláusula de barreira”, para manter o acesso ao fundo partidário e até mesmo para permanecerem na legalidade. Foi então criada a figura da “federação”, que poderia ser formada pela aliança de dois ou mais partidos, para conseguirem cumprir os quesitos propostos.

Nesse contexto, acontece o impeachment de Dilma, Temer assume e Bolsonaro é eleito em seguida. Contrarreformas profundas acontecem, como a aprovação da EC 95, que congela os investimentos sociais, a aprovação da contrarreforma trabalhista e também da contrarreforma previdenciária, a privatização de serviços públicos, e muitos outros ataques nunca vistos.

Qual a tática para derrotar Bolsonaro e a direita?

Derrotar Bolsonaro é prioridade de qualquer militante de esquerda, mas as custas de quê? No caso específico do PSOL, no decorrer dos anos, passou de uma oposição de esquerda aos governos petistas para o apoio incondicional. A justificativa seria derrotar Bolsonaro, mas a que custo? A maioria do partido quer retirar a candidatura própria para a presidência da República e já retirou a candidatura de Guilherme Boulos ao governo de São Paulo. O que vemos é uma submissão grande ao projeto petista.

O que poderia ser mencionado como uma “tática” para derrotar Bolsonaro, toma contornos de princípios: para justificar essas iniciativas, se constrói um discurso do PT como partido de esquerda e de Lula como defensor dos direitos dos trabalhadores, esquecendo-se do histórico de 13 anos de governos petistas, contra os quais houve grandes greves e lutas.

A federação com a Rede

Ainda, para superar a cláusula de barreira, o PSOL aprovou no dia 30 de março, uma federação com a Rede Sustentabilidade, partido que votou a favor da reforma da previdência de Bolsonaro e em São Paulo recebe financiamento do banco Itaú. Ao colocar como estratégia principal a construção eleitoral do partido, todas as iniciativas passam por garantir essa estratégia, e a defesa da classe trabalhadora fica em segundo plano.

Não é à toa lembrar que uma federação não é uma aliança pontual, mas que prevê a união de dois partidos durante todo o tempo de mandato, inclusive com um programa comum.

O manifesto da esquerda do PSOL e o limite de atuação no partido

Militantes de dentro e fora do PSOL, incluindo correntes de esquerda que atuam dentro do partido, lançaram em março o manifesto “PSOL na encruzilhada” (https://bit.ly/35Ph2No), no qual denunciam os rumos que o partido vem tomando. A iniciativa é importante, por exigir que o partido tenha independência de classe, não se una a partidos e organizações de direita e que seja um instrumento da classe trabalhadora. Mas é limitada, uma vez que ainda buscam uma saída por dentro do partido e a direção majoritária, lhes ignora.

Os rumos do partido revelam, mais uma vez, que é necessária uma forma de organização que una ativistas e militantes de esquerda, que pode tomar formas diferentes, mas que tenha como iniciativa principal defender e organizar a classe trabalhadora para enfrentar o Capital. Infelizmente o PSOL não é um espaço para essa ação, precisamos fortalecer a luta da classe trabalhadora sem ilusão no Parlamento e sem alianças com a burguesia, ocupando os espaços que de fato, são organismos da classe trabalhadora.