América Latina entre as lutas nas ruas e as ilusões parlamentares

O neoliberalismo na América Latina está sendo rechaçado nas ruas, desde antes da pandemia, como aconteceu no Chile, Equador, Colômbia e Bolívia. Ressaltando até a radicalização de algumas, como foi no Equador que acabou num acordão entre as direções do movimento e o governo.

Essas mobilizações têm a força para construir um movimento de base e de luta, mas há dois problemas: o primeiro é que as direções do movimento apostam na conciliação e cedem diante de qualquer promessa desses governos; o segundo se refere ao fato de que esses movimentos estão sendo deslocados para as eleições, iludindo a população. Quando são eleitos, esses governos ditos de “esquerda” logo fazem a mesma coisa e aplicam os mesmos programas de austeridade.

Colômbia entre paramilitares e um ex-guerrilheiro

O povo colombiano tem convivido com desemprego, miséria, violência policial e paramilitar (ligados ao narcotráfico) contra militantes lutadores.   O desemprego atingiu 13% da população, apenas 2 milhões dos 7 milhões de idosos recebem aposentadoria, só 9 milhões têm emprego formal, com a pandemia de COVID-19 a fome aumentou drasticamente.

Ainda esse ano, 29 de maio, poderá eleger o primeiro presidente de esquerda (institucional) de sua história. Gustavo Petro, é senador e foi guerrilheiro do grupo M-19. Sua vice, Francia Márquez, é militante dos Direitos Humanos. Apesar do passado guerrilheiro, Petro e sua coalisão Pacto Histórico tem como proposta um governo para fortalecer o Estado colombiano, sucateado pela política neoliberal que impera no país.

Mesmo sendo uma candidatura moderada, a extrema-direita Águias Negras vem fazendo ameaças de morte a Francia Márquez e Petro. Importante destacar que há vários grupos da extrema-direita e paramilitares ativos e são financiados pelo narcotráfico. Muitos ex-guerrilheiros e lideranças populares são assassinadas.

Petro pretende se aproximar de um eventual governo Lula no Brasil e de Gabriel Boric no Chile, e não quer se identificar com os governos da Venezuela e de Cuba, devido as recentes declarações de Maduro que classificou Petro, Castillo e Boric como “esquerda covarde”.

Peru: mudando para ficar tudo igual

O Pedro Castillo, professor de origem camponesa eleito presidente do Peru no ano passado já enfrentou três pedidos de impeachment, todos rejeitados pelo Congresso.

Castilho  tem uma posição pró-OTAN, mas seu partido, Peru Livre, se apresenta como democrático, descentralista, internacionalista, soberano, marxista-leninista-mariateguista e anti-imperialista. Mas, o que temos visto é Castillo aplicando as mesmas medidas neoliberais dos governos anteriores. Não tomou nenhuma medida contra o latifúndio, é contra a legalização do aborto, nomeou liberais para os ministérios, etc.

Desde julho do ano passado, Castillo vem protagonizando escândalos, do tráfico de influência (com delação da empresária Karolin Lopes, ligada ao governo) ao favorecimento da empresa Petroleum na venda de biodiesel, e a escolha de Ministro da Saúde de reputação duvidosa, seu ex-secretário Bruno Pacheco pressionou o chefe da Superintendência Nacional de Administração Tributária para conseguir empregos para amigos seus…

Com isso, mais uma vez, sepulta as ilusões de que se possa fazer algo pelas instituições.

 

Chile: o que não avança, retrocede

O Gabriel Boric se tornou a grande esperança num país que luta para se livrar da tradição pinochetista. Defensor do Estado de Bem-estar Social contra o neoliberalismo, inicia seu mandato no mesmo período em que a Assembleia Constituinte instaurada em julho de 2021 se prepara para apresentar o esboço do texto em 5 de julho.  Hoje, vigora no Chile a constituição de 1980, liderada por Pinochet.

A nova Constituição deve declarar o Chile como um Estado Plurinacional e Intercultural, a exemplo da Bolívia e Equador e dessa forma os povos originários (Mapuche, Aymara e Rapa Nui) têm direito à livre determinação.

Outra discussão importante da Constituinte é a questão da natureza. Esse tema está vinculado à questão econômica, ampliando as possibilidades de punição para empresas que poluam o meio ambiente. É o chamado “direito da natureza” que ganha força em vários países.

O sistema de aposentadoria (hoje não é pública e o sistema financeiro controla os fundos de pensão), a forma de representação (tem proposta para acabar com o Senado) e o direito à Educação Pública, etc. Esses são alguns dos temas polêmicos e que a burguesia através dos meios de comunicação legitimado pela direita política, seguem tentando desacreditar a Constituinte.

O projeto chileno é o que enfoca com mais ênfase sobre a questão das mudanças sociais via Estado. A Constituinte foi uma conquista das mobilizações, mas, principalmente no Chile, a via institucional nunca foi um caminho para obter e consolidar conquistas políticas e sociais.

Para nós, Emancipação Socialista, as conquistas democráticas e econômicas da classe trabalhadora são importantes, mas não pode parar nelas. A mudança real para a classe trabalhadora só vem com o fim do capitalismo e da propriedade privada e só podemos alcançar com a Revolução Socialista pelos trabalhadores.