Sertanejo: braço cultural do bolsonarismo

Farra com dinheiro público de prefeituras pequenas financiam o gênero musical

Vídeos que circularam na internet, em que o cantor Zé Neto, que faz dupla sertaneja com Cristiano, ironizou a cantora Anitta e a Lei Rouanet, foi o estopim para o início da crise dos cachês envolvendo os artistas sertanejos. O próprio Zé Neto atacou a Lei Rouanet em um show em que recebeu na pequena cidade de Sorriso, no Mato Grosso, cidade com pouco mais de 92 mil habitantes, um cachê de 400 mil.

Em função dos protestos na internet que pediram a “CPI do sertanejo”, os Ministérios Públicos de Roraima, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, começaram investigações sobre shows milionários bancados por prefeituras pequenas com a presença de artistas do gênero, em particular, do cantor Gusttavo Lima. No empobrecido município de Teolândia, na Bahia, com pouco mais de 12 mil habitantes e que foi duramente castigado pelas chuvas no final de 2021, o cachê do cantor foi orçado em R$ 704 mil. Já em Magé, o valor pago ao sertanejo chegou ao valor de R$ 1 milhão, dez vezes a mais do que é investido pelo município fluminense em atividades culturais.

Depois da publicidade em torno dos cachês milionários, Gusttavo Lima teve a sua apresentação em Conceição do Mato Dentro (MG), município com cerca de 17 mil habitantes, suspensa, show que lhe renderia um cachê de R$ 1,2 milhão, dinheiro este que deveria ser direcionado à saúde e à educação. Revoltado com o fato, o apresentador de um show de Gusttavo em Brasília citou “Deus, pátria e família”, lema do presidente Jair Bolsonaro e gritou: “Aqui nunca vai ser comunismo!”.

Vendo-se no centro de uma polêmica nas redes sociais, o cantor apelou e chorou na internet, falando da sua trajetória de menino que trabalhou na lavoura e que alçou o estrelato, ganhando dessa forma a solidariedade, de ninguém mais, ninguém menos, do senador Flávio Bolsonaro, o mesmo que fez fortuna com o esquema de “rachadinhas” no seu gabinete, empregando parentes e milicianos.

O “embaixador do agronegócio”: de menino pobre a milionário

Há duas décadas, Gusttavo Lima cantava no interior de Minas Gerais por um cachê de R$ 35,00. Hoje é acionista em empresas do ramo alimentício e de telemedicina. Também é dono de fazendas em Minas Gerais e Goiás, sócio do Frigorífico Goiás, que há um mês prestou homenagem a Jair Bolsonaro, com o voo de um helicóptero pintado com o rosto do Bozo.

Além disso, o cantor sertanejo possui um jatinho de R$ 250 milhões, iates assim como uma mansão de 15.000 m², muito similar a um clube ou a um condomínio, com lago de pesca, quadras de esporte, academia de ginástica, spa, estúdio fotográfico. A garagem é enfeitada com a coleção de carrões de Gusttavo: Lamborghni, Ferrari, Porshe, Mercedes Benz, Cadillac e Lincoln.

Por trás desse enriquecimento de Gusttavo e de outros cantores sertanejos, está o agronegócio: no lugar do velho “jabá” (propina ao radialista) para execução de uma música no rádio, o agronegócio aprimorou e comprou as rádios. Fora a promoção de feiras pecuárias, onde o gênero é a atração, e a compra de emissoras de televisão para que sejam executadas as músicas sertanejas nas novelas.

O resultado disso tudo é que das dez músicas mais tocadas no aplicativo de música Spotify, nove são sertanejos universitários, tudo pobre melodicamente e letras nada originais que só falam de balada, bebedeira e traição, que ajudam a alienar culturalmente ainda mais as pessoas e que mostram como um sucesso é produzido e não natural.

Enquanto isso, a forte bancada do agronegócio no Congresso, aliada de Bolsonaro, fecha os olhos e incentiva a violação da legislação ambiental, a expansão da fronteira agrícola e a invasão de terras indígenas, onde se promove o garimpo e assassinam os povos nativos e onde desaparecem pessoas que denunciam esse processo como o jornalista inglês Dom Phillips e o servidor licenciado da Funai, Bruno Pereira.

Em resumo, os “bons moços” das duplas sertanejas, todos de origem humilde e que ascenderam socialmente de maneira fulminante com o apoio dos seus patrocinadores (que ajudaram abrir os cofres de prefeituras aliadas políticas), legitimam na indústria cultural os seus ricos incentivadores, os empresários do agronegócio: aqueles que têm larga ficha criminal e as mãos sujas do sangue de povos indígenas, comunidades quilombolas, pequenos agricultores, sem terra, ambientalistas etc.

Lei Rouanet não é referência para política cultural

Apesar de muito criticada por artistas bolsonaristas, é preciso dizer que a Lei Rouanet nunca foi uma referência de financiamento público à cultura. As isenções fiscais aos empresários para fomento das atividades do setor cultural sempre foram muito mais vantajosas aos primeiros do que ao segundo.

A cultura deveria ter sim financiamento de verbas públicas, como a saúde e a educação, sem contrapartidas. Infelizmente, isso não ocorre porque mais da metade dos recursos públicos do país está voltado ao pagamento da dívida pública aos bancos, desviando desta maneira as verbas públicas que deveriam estar voltadas para cultura, saúde, educação pública, saneamento básico e habitação popular para a mão dos grandes banqueiros ficarem ainda mais ricos.