Rodrigo Paz, eleito presidente boliviano em final do ano passado, está entre a cruz e a espada. Há duas semanas, mineiros, professores, camponeses, indígenas e moradores estão nas ruas, exigindo a sua renúncia imediata, através da Central Operária Boliviana (COB), da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), dos Ponchos Vermelhos, das organizações indígenas e dos sindicatos.
A mobilização operária e popular fechou as vias de acesso ao Departamento de La Paz, com mais de 70 bloqueios. No dia 18 de maio, ocorreu o ponto alto das manifestações: uma marcha de dezenas de milhares desceu de El Alto até La Paz e o governo respondeu com forte repressão nas vias de acesso à capital. Ao menos quatro manifestantes foram mortos e dezenas ficaram feridos. Há ainda relatos de mais de 57 detenções.
O fracasso do “capitalismo para todos” de Rodrigo Paz
O chamado “capitalismo para todos” prometido por Paz se mostrou uma falácia. Seu programa de austeridade mostrou a sua submissão ao Fundo Monetário Internacional (FMI), às empresas transnacionais e ao agronegócio. Uma alta absurda dos preços dos combustíveis antecedeu à venda dos recursos naturais, sendo esta revertida por intensa mobilização popular. Justamente, o que faltou aqui quando do encontro de Lula com Trump, o que deu oportunidade aos ianques para exploração por parte das empresas imperialistas estadunidenses dos minérios raros brasileiros.
Além da alta dos combustíveis, Paz abriu a possibilidade de converter pequenas propriedades camponesas (conquistas de uma das reformas agrárias mais radicais feitas na história, produto da Revolução Boliviana de 1952) em propriedades de médio porte, sujeitas a juros e execução hipotecária para contento do agronegócio. Por fim, Paz decretou a eliminação de impostos sobre grandes fortunas e lucros extraordinários.
Rodrigo Paz, para quem não sabe, é filho do ex-presidente Jaime Paz e neto do também ex-presidente Victor Paz Estenssoro. Esse último ascendeu ao poder, após a vitória parcial da Revolução de 1952, que também conseguiu a nacionalização das minas de estanho. Entretanto, Estenssoro congelou as demandas operárias e socialistas do processo revolucionário, mantendo a Revolução nos marcos do nacionalismo burguês. Ao retornar ao poder, em 1985, Estenssoro aplicou o modelo neoliberal na economia boliviana, aprofundado pelo seu filho, que governou o país, a partir de 1989.
A extrema-direita está na espreita na atual conjuntura boliviana. Não é à toa que os EUA querem criminalizar as mobilizações, alegando que as mesmas são parte de um “golpe de Estado” financiado pelo crime. A expulsão recente, por parte do governo boliviano, da embaixadora colombiana do país, pelo fato de Gustavo Petros ter dito que a Bolívia vive uma insurreição popular, é uma prova disso. Também Evo Morales acusa diretamente Washington, a DEA e o Comando Sul de coordenarem ações com o governo boliviano para lhe prender, uma repetição do que foi feito com Nicolas Maduro e sua esposa Cilia Flores. E frente a esses ataques à soberania boliviana, o governo Lula, em idílio amoroso com Trump, mais uma vez silencia.
Evo Morales não é alternativa ao atual processo boliviano
Hoje, Evo Morales é apontado novamente como alternativa de esquerda no processo boliviano. O MAS (Movimento ao Socialismo), o seu partido, chegou ao poder, depois da rebelião popular de 2000 contra a privatização da água e governou de 2006 a 2025 (primeiro com Evo Morales e depois com Luís Arce) em base a um Pacto Social, materializado na Constituição de 2009, que refundou a Bolívia como um Estado Plurinacional e Comunitário, mas baseado na existência de classes sociais.
Em resumo: o chamado Socialismo XXI, pregado pelo MAS, não propôs a expropriação da burguesia boliviana, pois focou na democracia participativa e no controle estatal dos setores estratégicos para forçar a elite a cumprir sua função social. Ora, é mentir para si mesmo acreditar que a burguesia tenha outra função social que não seja a exploração da classe trabalhadora. Tanto que depois de 20 anos de MAS, um governo claramente alinhado ao grande capital, está tentando dar as cartas.
Portanto, cabe à COB, à CSUTCB, aos sindicatos, aos movimentos sociais e às organizações de esquerda não desperdiçarem as atuais mobilizações bolivianas (o que infelizmente ocorreu com a Revolução Boliviana de 1952 e com os processos que ocorreram em 1982/84 e também em 2000). É preciso construir urgentemente uma alternativa de poder da classe trabalhadora, dos indígenas e dos setores populares, sob pena de nova derrota.



