Reivindicação e crítica à Revolução Russa

A Revolução Russa é, sem dúvida, a maior vitória da classe trabalhadora e a mais original delas. A classe operária foi a vanguarda com um partido revolucionário radical, com os soviets (Conselhos Operários) e com sua consciência classista.

Foi uma “revolução consciente”, quando a classe trabalhadora desenvolveu e construiu seu propósito e seu programa de ação. Também superou erros de outras revoluções e aproveitou experiências das Revoluções de 1848 e da Comuna de Paris.

Teve um impacto tão grande que se tornou “modelo” de Revolução, ainda que copiar um processo tão original e autêntico seja um erro grosseiro, pois cada país e cada época têm suas especificidades.

Influenciou lutadores/as no mundo inteiro. Partidos comunistas foram construídos tendo-a como referência. Deixou a burguesia mundial apavorada com a possibilidade de o proletariado de seu país faz a mesma coisa. E, principalmente, mostrou que a classe trabalhadora é capaz de decidir sobre seu destino e se apropriar daquilo que produz.

Foi uma proeza sem tamanho. Derrubou uma das ditaduras mais cruéis. Enfrentou a invasão de Exércitos de vários países, uma guerra civil, a fome devido as ações de sabotagens da burguesia e, mesmo assim, a Revolução Russa se manteve. Proeza e coragem que também foram fundamentais para derrotar o nazismo na II Guerra.

Considerar os soviets como Conselho Operário e o órgão do poder revolucionário é fundamental, pois, foram representações de operários, camponeses e soldados eleitos em suas bases onde se decidiam questões importantes para a Revolução, com debates livres, sem perseguir discordantes e com decisões tomadas por voto de maioria. O livro “Como funcionavam os soviets”, de John Reed, é muito bom para entendermos o seu papel.

As negociações para o Tratado de Brest-Litovisk, entre a Rússia revolucionária e a Alemanha que definiram os termos para a saída da Rússia da I Guerra, são uma mostra do tamanho das mudanças com a Revolução. Como afetaram a vida do povo, pois o acordo impunha sacrifícios pesados, todos os passos das negociações e os debates sobre assiná-lo ou não foram transmitidos pelo rádio. Sem uma correlação de forças favorável, o Tratado foi assinado com o apoio da classe trabalhadora já desgastada com a Guerra. Assim, os bolcheviques puderam se dedicar aos problemas internos.

Outro legado importante da Revolução Russa é o internacionalismo, que colocou em prática a proposta de Marx de “proletários do mundo, uni-vos”. Mais do que enfrentar a contrarrevolução interna, Lênin, Trotsky e outros revolucionários viam na construção da III Internacional Comunista (a II Internacional social-democrata tinha debandado para o lado imperialista) a forma de expandir a Revolução para os países capitalistas avançados, organizar a luta dos trabalhadores nos diversos países e praticar a solidariedade internacional entre explorados.

A partir de o início dos anos 20 do século XX, a Revolução Russa enfrentou duros reveses.

Ao contrário do plano dos Bolcheviques, a Revolução não avançou para outros países, deixou a Rússia isolada e sob pressão imperialista. A Revolução Alemã (1919) foi esmagada e com os duros assassinados de Rosa Luxemburgo e Kark Liebknecht. Na Hungria, os revolucionários chegaram a tomar o poder, mas não se sustentou. Na Itália, ocorreram greves com ocupação de fábrica, que foram derrotas e seguidas da ascensão do fascismo.

Não dogmáticos, sejamos marxistas

Não estamos entre os que entendem o processo revolucionário russo como perfeito ou sem erros Lênin, Trotsky e outros. Tinham muitos. O stalinismo, por exemplo, não surgiu do nada, foi resultado de um processo de burocratização que já ocorria no interior do partido e do Estado.

Para quem quiser se aprofundar nessa questão, o livro “O partido Bolchevique”, do revolucionário francês Pierre Broue, é cheio de dados e informações. Outro texto importante é “Os perigos profissionais do poder”, do bolchevique Christian Rakovski.

Uma situação muito difícil e sensível do processo russo foi o ataque militar à cidade de Kronstadt, em 1921, por decisão do Comitê Central do Partido Bolchevique. Nessa cidade, os marinheiros e os operários tinham desempenhado papel fundamental na tomado do poder, mas, estavam descontentes com a crise econômica e as medidas de governo. Rebelaram-se contra o governo e apresentaram uma lista de reivindicações econômicas para resolver os problemas que o povo enfrentava. No entanto, a direção do partido, incluindo Lênin e Trotsky, os trataram como inimigos e a cidade foi bombardeada. Como bem sistematizou Victor Serge, no texto “Balanço de 30 anos da Revolução Russa”, foram os militares enviados para resolver um problema político.

As decisões do X Congresso de 1921

Também em 1921 aconteceu o X Congresso do Partido Bolchevique. Foi uma virada no funcionamento interno do partido e foram votadas várias limitações à democracia interna como o fim de frações, de debates e polêmicas externas.

Até esse Congresso, o funcionamento do partido foi extremamente democrático com debates públicos entre dirigentes. Mas, foi também um partido muito centralizado. Havia, então, a combinação entre democracia interna e centralização que caracterizava o regime político chamado de centralismo democrático.

Originalmente as mudanças foram temporárias (até terminar a Guerra Civil), mas, tornaram-se permanentes, principalmente após a ascensão de Stalin.

Como diz Trotsky: “Pode-se considerar que essa resolução do 10º Congresso obedeceu a uma necessidade grave. Porém, os acontecimentos posteriores deixam absolutamente claro que a proibição das frações significou o fim do período heroico da história bolchevique e abriu caminho para sua degeneração burocrática.

Ainda hoje podemos dizer que mente quem atribui ao “modelo leninista de partido” as restrições à democracia interna nos partidos revolucionários, num momento tão difícil para a Revolução.

No entanto, manter a classe trabalhadora russa mobilizada poderia levar a corrigir os erros e fortalecer a democracia ao invés de fortalecer a burocracia, que tratou de controlar e derrotar as lutas do movimento operário. Nesse sentido, o stalinismo foi um desvio consciente e contrarrevolucionário que muitos danos causou à Revolução.(veja artigo nessa edição).