Cem anos depois, a extrema-direita volta A governar a Itália

Giorgia Meloni foi escolhida primeira-ministra da Itália no dia 25 de setembro e tomou posse em 22 de outubro. É a primeira mulher a ocupar o cargo no país, que é uma república desde 1946. Mas nada há para se comemorar: Meloni se insere no Neofascismo (grupos afiliados ao Fascismo surgidos após a II Guerra Mundial), tendo chegado ao poder a partir de uma coalizão de forças que engloba o conservador Silvio Berlusconi, da Força Itália, ex-premiê italiano nos anos noventa e dois mil e Matteo Salvini, político ultradireitista da legenda Liga. As propostas de seu partido, Irmãos da Itália, têm como foco defender os italianos brancos em detrimento dos imigrantes, além do combate às lutas da população LGBTQI+.

A vitória de Meloni confirma que as ideias ultradireitistas estão obtendo apoio da classe trabalhadora em muitos lugares do mundo, em especial na Europa. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, que é uma referência para a nova premiê italiana, é um exemplo importante disso. Além dele, Andrzej Duda, presidente da Polônia que enfrenta desavenças com a União Europeia e com quem Bolsonaro se reuniu após seu discurso na ONU este ano é outro representante importante da ultradireita na Europa (Hungria e Polônia são dois países do Leste Europeu que fizeram parte da Cortina de Ferro Soviética e hoje vivenciam a força do extremismo de Direita). No Reino Unido, o Partido Conservador está no poder, apesar de vir enfrentando dificuldades para implementar seu plano para alavancar a economia que levaram à renúncia da nova primeira-ministra, Liz Truss após 45 dias no poder e a ascensão de Rishi Sunak, empresário de origem indiana que defende a linha dura contra os refugiados e a imigração ilegal.

O fascismo do século XXI

Uma característica comum aos ultradireitistas atuais é o repúdio aos imigrantes. Esse traço é marcante nos discursos do ex-presidente estadunidense Donald Trump e de Marine Le Pen, que nas últimas eleições francesas obteve 40% dos votos. A recusa às políticas de imigração traduz o racismo e a xenofobia europeus para ações práticas e bem aceitas devido à crise em que o Capitalismo se encontra. Este é exatamente o caso da Itália, que vive uma recessão.

Meloni é abertamente seguidora de Mussolini, apresentando-se como pós-fascista. Adotou as palavras de ordem do Duce, Deus, Pátria e Família, que constam como slogan do presidente Bolsonaro também. O uso da chama tricolor como logotipo, comum ao Movimento Social Italiano (e mantida pelo partido de Meloni), à Frente Nacional da França e à Reagrupação Nacional Francesa (de Le Pen) tem explícita simbologia fascista.

O que diferencia o Pós-fascismo da versão que o inspirou é que no século XXI a crítica ao Estado vem forte. O discurso econômico, portanto, é neoliberal, com franca defesa dos interesses da grande burguesia de hoje: retirada de direitos trabalhistas e privatizações. Países como a Itália já não têm uma saúde pública totalmente gratuita como conhecemos no Brasil. E sabemos o número desastroso de trabalhadores que morreram de COVID-19 na Itália em 2020, pois os acionistas de hospitais particulares queriam as fábricas abertas pois também têm ações lá.

 

A Morte em nome de Deus

A fórmula é sempre a mesma: o líder cristão promove uma cruzada contra o inimigo. Hoje não são os judeus o alvo. Na Europa é o Islã. No Brasil são os negros e indígenas, nos EUA são os negros e os imigrantes latinos.

Meloni se apresenta como cristã e mãe. Sua pauta é contrária aos direitos das mulheres, com a proibição do aborto e tendo o aumento da natalidade como objetivo. Esta é uma receita comum a este espectro político, bem presente nos discursos de Bolsonaro: o feminismo é visto como inimigo da família e de Deus. Meloni se opõe ao casamento homossexual e à barriga de aluguel para filhos de casais homoafetivos. Com relação aos imigrantes, sua meta é construir um bloqueio no Mediterrâneo, assim como Rishi Sunak e Macron pretendem com as travessias marítimas pelo Canal da Mancha.

Há uma outra característica comum às forças ultradireitistas atuais pelo mundo afora e que foi bastante percebida no Brasil desde as Jornadas de Junho de 2013: o discurso de indignação com a política tradicional com a recusa a reconhecer as diferenças entre Esquerda e Direita.

Meloni fez sua estreia na militância de extrema direita aos 15 anos e em 2008 tornou-se ministra da Juventude de Berlusconi. Ela reúne em si elementos que promovem adesão a ideais autoritários: abandonada pelo pai, trabalhou cedo como babá e camareira.

A ascensão de ideais reacionários é fruto da crise de liderança da classe trabalhadora e da propaganda burguesa contra o Socialismo, além da própria crise estrutural do Capitalismo. Seguindo cada líder como ela, milhares de pessoas expostas à violência, ao subemprego ou à exclusão social encontram na narrativa de negação da política um alento que, na verdade, é sua própria morte