Na nota anterior, tratamos das atrocidades de Israel contra a população palestina em Gaza. Nessa, vamos tratar das atrocidades contra a população palestina na Cisjordânia.
Duas questões são importantes.
A primeira é o que reconhecemos como território da Palestina: toda a região no que é chamado Israel, Gaza e as áreas que, formalmente, estão sob controle administrativo palestino, mas estão sob ocupação militar israelense, como a Cisjordânia. Jerusalém, uma cidade sagrada para as religiões cristã, judaica e o islamismo, também está ocupada e anexada por Israel desde 1980.
A segunda é a impossibilidade de compreender as razões das atrocidades das forças israelenses sem ter em conta o projeto da “Grande Israel” que está sendo implementado pelos sionistas. Ele tem como base a expulsão ou assassinato de toda a população palestina nos territórios ocupados. Ou seja, o plano israelense é avançar seu domínio total para todos os territórios palestinos e até outros países, como o sul do Líbano.
Cisjordânia: do golpe de Estado à ocupação
Como tem acontecido frequentemente nos últimos anos, nessa semana, mais um grupo de israelenses (com apoio das forças militares israelenses) invadiu a vila palestina Tal (que fica na Área A da Cisjordânia) e 4 palestinos foram assassinados. Não é um caso isolado e nem um pequeno grupo de pessoas. Mas, parte de uma política sistemática do governo Netanyahu, que tem o objetivo de expulsar ou assassinar os palestinos do território e anexar a Cisjordânia a Israel. E também não de agora, pois desde 1948, a população palestina desse território sofre todo tipo de perseguição e violência.
Após o golpe de Estado para a criação de Israel e com a assinatura do armistício (da guerra de 1948 entre Israel contra Síria, Jordânia e Egito), a parte oriental de Jerusalém e a Cisjordânia passaram ao controle da Jordânia que, inclusive, a anexou em 1950. Já Gaza, outra região em que os palestinos expulsos por Israel se refugiaram, ficou sob controle do Egito.
Esses controles duraram até 1967, quando, em mais uma fase da sua política expansionista, Israel invade e estabelece uma ocupação militar. No caso da Cisjordânia e Jerusalém, dura até hoje. E, com as sucessivas rebeliões populares, Gaza foi desocupada em 2006. Atualmente, está sob cerco total israelense.
Entre 1993-1995, Yasser Arafat assinou o Acordo de Oslo, pelo qual a Cisjordânia foi dividida em 3 áreas: A, B e C. Deveria ser uma divisão temporária e transitória até chegar ao formato final do acordo, o qual previa que toda a região seria gradualmente transferida para a Autoridade Palestina (criada pelo mesmo acordo).
Importante lembrar que esse acordo foi amplamente rechaçado pelo povo palestino. Primeiro, porque implicava em reconhecer o Estado artificial de Israel e, depois, porque ninguém acreditava que Israel cumpriria sua parte. Como vemos, mais uma vez, Israel não cumpriu e mantém a ocupação militar.
Para melhor entender o problema, veja como ficou a divisão da Cisjordânia.
Área A (18% da Cisjordânia ou 3,96% da Palestina histórica): formalmente a Autoridade Palestina controla a administração e a segurança.
Área B (22% da Cisjordânia ou 4,62% da Palestina histórica): controle administrativo pela Autoridade Palestina e o controle militar é pelas forças israelenses.
Área C (60% da Cisjordânia, ou 13,42% da Palestina histórica): totalmente controlada por Israel.
É preciso uma teoria, ou melhor, um mito para explicar o inexplicável
Uma ocupação militar ou colonização contra um povo sempre vem acompanhada de uma ideia, algo que justifique -ou pelo menos tente- o injustificável. No caso de Israel, o principal argumento é o da defesa do país. Mas, a explicação mesmo é o projeto expansionista de anexar a Israel os territórios fronteiriços, que atende pelo nome de Grande Israel.
Há, mesmo no interior do sionismo, visões diferentes do que seria essa Grande Israel: uma abrangendo toda a Palestina ocupada, o Líbano, a Jordânia e partes da Síria, do Iraque, do Egito e até da Arábia Saudita. A outra é mais restrita e incorpora os territórios palestinos, as Colinas de Golã na Síria e a Península do Sinai no Egito.
O primeiro a defender esse conceito foi Theodor Herzl, uma interpretação bíblica do livro de Gênesis, “do ribeiro do Egito ao Eufrates”, e que seria uma demarcação geográfica da Terra Prometida para o “povo judeu”, ou seja, para o sionismo se trata de um direito divino.
São vários problemas desse conceito e suas justificativas, como o fato de ser uma imposição, a partir de um dogma religioso, assassinar ou expulsar quem viva ali por milênios. Também está na base desse conceito considerar os praticantes de uma religião (o judaísmo) um povo, como se existisse um marcador biológico, um DNA próprio, determinando uma pessoa ser judia, algo sem comprovação cientifica e questionado, até mesmo, por intelectuais com origens no judaísmo, como Slomo Sand.
O que se passa hoje na Cisjordânia?
A condição para ter uma “Grande Israel” é impor uma grande derrota aos povos desses territórios e, em relação aos palestinos, já está sendo implementado. Para isso, usam dois métodos para tirar a população palestina dessa região: o primeiro, usado cotidianamente, mas tem um limite, que é o assassinato da população (os bombardeios à Gaza, matando dezenas de milhares de pessoas e os assassinatos). O outro é criar “as condições para a saída voluntária da população palestina” (James Petras). Por criar essas condições, entenda-se prisões, queimar as plantações, expulsar as pessoas de suas casas e avançar com assentamentos de israelenses, jogar concreto nos poços de água, derrubar vilas inteiras, entre outras perversidades.
Os assentamentos: Uma prática apoiada pelo Estado sionista é a implementação de assentamentos no território da Cisjordânia. Populações palestinas são expulsas e, nesse local, são construídas casas e infraestrutura para moradores israelense invasores. Estima-se que 500 mil colonos israelenses estejam na Cisjordânia em assentamentos legalizados pelo governo israelense. Em inúmeros casos, a “justiça” israelense determina a retirada de palestinos de suas casas, que são invadidas por esses colonos. Ultimamente, por conta da pressão internacional, novos assentamentos estão sendo aprovados secretamente. Há casos também de fazendas sendo tomadas de palestinos e repassadas para esses colonos.
A violência dos colonos contra palestinos: Além desses assentamentos impostos pelo governo israelense, há um movimento da extrema-direita nacionalista que organiza assentamentos “ilegais”, mas logo são reconhecidos pelo governo israelense. Esses grupos também atacam vilas, agridem e até assassinam palestinos.
Segundo a ONG israelense de direitos humanos Yesh Din, só em março desse ano, houve 305 atos de violência dos colonos, mais de 10 incidentes por dia, incluindo agressões, danos à propriedade e apropriação de terras. Em 2025, pelos dados da ONU, foram 725 ataques, com 7 palestinos mortos e 832 feridos, incluindo crianças e adolescentes. Há muitos relatos de violência sexual contra mulheres palestinas, ataques com bombas, casas e mesquitas incendiadas.
Destruição das plantações: Outra prática comum das forças de ocupação e dos colonos é a destruição de plantações, especialmente as oliveiras. Estima-se que, desde 2020, foram destruídos mais de 120 mil pés de oliveiras, em terras de palestinos. Oliveiras que produzem azeitonas, mas também representam a ancestralidade, dada a sua longevidade. Outros milhares foram danificados prejudicando a produção.
No ano passado, foram mais de 1500 ataques em 87 vilas palestinas. Plantações destruídas, equipamentos agrícolas e painéis solares roubados pelos colonos. Quando palestinos resistem a esses ataques, entra a repressão das forças policiais, que atuam protegendo os colonos.
As restrições de água aos palestinos: Israel construiu um sistema de gestão da água que garante o abastecimento em qualquer época do ano, mesmo nos períodos mais secos. Mas, esse sistema não contempla os palestinos. Pelo contrário, há várias limitações de uso.
O controle militar da região permitiu a Israel ter o controle exclusivo sobre as fontes de água. E, após a ocupação da Cisjordânia, também assumiu o controle do setor hídrico palestino, impondo proibições e restrições. Um palestino que queira perfurar um poço precisa da aprovação e há proibição mesmo dos poços antigos, que são soterrados com concreto.
Todos os assentamentos de colonos na Cisjordânia estão conectados à rede hídrica israelense, diferente das vilas e cidades palestinas que convivem com racionamento de água, por conta da distribuição discriminatória do uso das fontes de água.
Os israelenses que vivem em assentamentos usam, em média, 247 litros de água por dia, por pessoa. Já os palestinos na Cisjordânia usam 82,4 litros, por pessoa. Em algumas cidades, como Belém e Hebron, é, em média, de 51 litros, por pessoa. Nas comunidades palestinas que não estão conectadas à rede de água, o consumo baixa para 26 litros, por pessoa.
O objetivo é a limpeza étnica também na Cisjordânia
A violência e a repressão policial, as restrições de acesso à água, a destruição das plantações são parte do plano de criar “as condições para a saída voluntária da população palestina”, uma saída forçada dos palestinos da Cisjordânia, a qual vai sendo ocupada por colonos invasores. O próximo passo seria uma ação militar mais aberta e expulsão geral dos palestinos de suas terras históricas.
Até mesmo Ehud Olmert, conservador, e ex-primeiro-ministro israelense reconhece que “hoje, é preciso dizer que o Estado de Israel conduz uma campanha organizada, sistemática e financiada pelo Estado de limpeza étnica e crimes contra a Humanidade. Não na Faixa de Gaza, não no Sul do Líbano, não na Síria, mas em áreas da Cisjordânia que estão sob controle exclusivo do Estado e de seu aparato de segurança”
Todos esses dados só reforçam a nossa posição de que Israel é um Estado racista e genocida. É uma condição que mesmo que o governo da extrema-direita fundamentalista seja derrotado, o Estado seguirá com a mesma política (provavelmente por outros meios).
Por isso não há outro caminho que não seja o fim desse Estado e a luta por uma Palestina livre, democrática e socialista, onde todos possam conviver pacificamente.



