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Home Internacional

Revolução e contrarrevolução na Bolívia

14 de junho de 2026
in Internacional
Fotografia aérea de uma passeata com milhares de trabalhadores bolivianos em uma rodovia de uma zona rural da Bolívia.
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A Bolívia hoje é o epicentro da luta de classes no planeta. Sem desprezar processos muito importantes como a Greve Geral em Portugal, no início de junho, ou os explosivos protestos que tem ocorrido no México (com professores e estudantes à frente, contra o sucateamento da educação e, por tabela, contra a realização da Copa do Mundo), a convulsão social boliviana é um dos acontecimentos mais importantes da luta de classes, nos últimos 36 anos, e que pode, dependendo da sua resultante, apontar para uma nova correlação de forças com o capital, revertendo a etapa defensiva de mais de 3 décadas para a classe trabalhadora.

Seu impacto está por trás de 2 outros processos que estão ocorrendo em países vizinhos da Bolívia: os fortes protestos da juventude que se deram no Chile, também em início de junho, contra os cortes prometidos na educação pelo governo de ultradireita de Kast e no Peru, distorcidamente, na disputa acirrada entre o candidato da “esquerda” institucional Roberto Sanchez contra a candidata de extrema-direita Keiko Fujimori.

Em resumo: é um processo, guardadas as suas especificidades, que lembra os que ocorreram no país em 1952 (que conseguiu uma reforma agrária radical e a estatização das minas de estanho) e em 1985. Ambas situações revolucionárias, mas que foram derrotadas, através da “contrarrevolução democrática”, chefiada por Victor Paz Estenssoro, avô do atual presidente.

Como tudo começou?

Rodrigo Paz foi eleito prometendo um “capitalismo para todos”. Essa fraude política na sua campanha permitiu que ele conseguisse derrotar o Movimento ao Socialismo, dividido pela disputa entre os ex-presidentes Evo Morales e Luís Arce. Dessa forma, encerrou-se uma hegemonia do MAS de quase 2 décadas e que tinha conseguido um Pacto Social com a burguesia boliviana, materializado na Constituição de 2009. Assim, depois de muito tempo, um governo de direita clássico assumiu o poder no país andino.

Logo depois de tomar posse, o próprio Paz desmontou a farsa que o elegeu. Ao estilo Milei, Presidente da Argentina, o mandatário boliviano começou, de imediato, a fazer um governo alinhado com a banca financeira, com o agronegócio, com as mineradoras privadas e com os interesses de rapina estadunidenses, ávidos pelos minérios raros, dos quais 31 dos 38 existentes estão na Bolívia.

A retirada do histórico subsídio à gasolina e a revogação da taxação das grandes fortunas foram as primeiras medidas neoliberais do governo Paz. Em resposta, vieram as greves de mineiros e professores. Após essas medidas, o presidente boliviano promulgou a Lei 1720, abrindo a possibilidade de entregar as terras indígenas ao capital financeiro.

Essa lei permitia ao Instituto de Reforma Agrária converter a pequena propriedade agrária em média e, dessa forma, facilitando essas terras serem hipotecadas como garantia para crédito, com risco de os camponeses perderem essas terras, ou seja, flexibilizando a proteção à pequena propriedade agrária. Uma lei que tendia à concentração da terra, beneficiando os grandes interesses econômicos em detrimento das comunidades rurais e indígenas

Foi o estopim para a explosão social que tem sacudido a Bolívia há mais de 40 dias, materializada na Greve Geral deflagrada pela Central Obreira Boliviana (COB) em 01 de maio, e nos bloqueios de estradas, que chegaram a atingir, em final de maio, mais de 90 pontos do país, envolvendo mineiros, operários, camponeses, indígenas, professores, donas de casa, todos exigindo o “Fora Paz!”.

O governo foi obrigado a revogar essa lei, mas os trabalhadores não pararam e passaram a buscar derrubar o governo Rodrigo Paz.

A escassez de alimentos, medicamentos e combustíveis têm atingido, principalmente La Paz e a vizinha El Alto, com reflexos, em menor grau, em Cochabamba, Oruro e Potosí, além de outros 4 departamentos. A taxa de inflação supera 26%, há escassez de dólares e houve uma queda abrupta na produção de gás, principal fonte de receita do Estado boliviano. O escoamento de minerais (prata, zinco, estanho e projetos de lítio) e a chegada de insumos básicos para a produção também foram atingidos.

Para onde vai a Bolívia?

A insurreição popular na Bolívia, até esse momento, com 10 mortos, 365 detidos e 37 feridos, já derrubou 3 ministros e rechaçou os chamados de trégua do presidente. Esse último, em uma medida demagógica, chegou a prometer a redução pela metade do seu salário e dos seus ministros, em vão. Já o Parlamento e o Judiciário boliviano estão bastante desacreditados. E o vice-presidente do país, Edman Lara também rompeu com Paz.

Apesar da crise nas classes dominantes bolivianas e nas suas instituições, a direção da COB, dos sindicatos, dos camponeses, das organizações populares e indígenas se negam a unificar os seus comandos e as suas ações. A direção da COB não amplia a Greve Geral que está forte, mas ainda não atingiu todas as minas e nem o setor dos transportadores e da aviação. Mesmo assim, a base radicalizada dos movimentos sociais, nos “cabildos” (assembleias), tem superado, muitas vezes, as suas direções.

Apontado como o instigador dos protestos, Evo Morales, sem a mesma base social, advoga também pelo “Fora Paz!”, porém, defende uma nova eleição presidencial nos próximos 90 dias. É muito pouco diante de tudo que tem acontecido no país nos últimos dias, além de desviar a luta para as eleições, um caminho que deu errado países como o Chile, Colômbia, Peru e Equador, quando riquíssimos levantes populares foram cooptados pelo jogo eleitoral e pela “contrarrevolução” democrática.

Governo Paz contra-ataca

Essas vacilações das direções do movimento permitiram que o moribundo presidente boliviano rearticulasse sua base de apoio e buscasse respaldo internacional, principalmente o imperialismo ianque. Trump entrou em cena, falsificando os fatos e chamando os movimentos na Bolívia de “narco terroristas”, discurso logo incorporado por Rodrigo Paz.

Somaram-se nessa empreitada contra os movimentos sociais bolivianos os presidentes de extrema-direita da Argentina, Costa Rica, Equador, El Salvador, Panamá, Paraguai, República Dominicana e Trinidad e Tobago que prometeram dar apoio logístico e material ao governo boliviano. Lamentavelmente, o governo Lula seguiu nesse mesmo caminho, enviando mais de 20 toneladas de alimentos para o governo boliviano, sob o pretexto de “salvar a democracia” no país andino.

Esse apoio externo da extrema-direita e da “esquerda” liberal do Cone Sul permitiu que Paz, juntamente com o desacreditado Legislativo, conseguisse a aprovação de uma lei que dá carta branca ao governo para recorrer às Forças Armadas, no sentido de desobstruir as estradas controladas há mais de um mês por manifestantes.

A participação dos militares antes era limitada e era a tropa de choque da polícia e os grupos paramilitares que estavam à frente dos desbloqueios das estradas. Com o estado de exceção se configurando, as Forças Armadas passarão a ter a presunção de legalidade para agir e o governo dará o respaldo legal a um provável banho de sangue.

A partir daí, reforçou-se a ação da polícia e dos grupos paramilitares para desbloqueios de estrada, como o feito no povoado de San Julian, no conservador departamento de Santa Cruz, confronto que deixou 4 militares e 14 civis feridos. Essa ação foi respondida logo em seguida pelo movimento de massas, com a invasão e saque da casa do prefeito de San Julian que teve que sair fugido da cidade com a família, protegidos pela polícia.

Contudo, as forças de repressão seguem prendendo os dirigentes do movimento. Na segunda semana de junho, 5 dirigentes da COB foram sequestrados. Apesar disso, os bloqueios prosseguem em, pelo menos, 80 pontos do país, o que tem alarmado a banca financeira internacional. Paralelamente, mulheres bolivianas camponesas, operárias e indígenas seguem em greve de fome, em apoio àqueles que fazem a luta direta nas ruas.

O que fazer em apoio à insurreição popular na Bolívia?Fotografia aérea de uma passeata com milhares de trabalhadores bolivianos em uma rodovia de uma zona rural da Bolívia.

Algumas discussões se fazem no seio da esquerda anticapitalista brasileira sobre o atual processo boliviano: a) se existem organismos de poder alternativo dos trabalhadores e da população país andino; b) se existem “rachas” nas Forças Armadas; c) se temos ou não uma situação revolucionária e, caso sim, se temos uma revolução de “fevereiro” ou de “outubro”, reportando-se às 2 fases da Revolução Russa de 1917.

Todas essas discussões são procedentes, mas não justificam a quase nenhuma campanha de solidariedade, por parte das entidades do movimento social do Brasil, ao levante popular boliviano. Excetuando a louvável iniciativa da CSP-Conlutas de enviar uma delegação à Bolívia e de moções como da UNE e do SINTUFF, muito pouco foi feito. É preciso urgentemente reverter esse quadro e fazer o que está ao nosso alcance para que a insurreição na Bolívia se torne vitoriosa.

 

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