Em mais um capítulo da ofensiva imperialista sobre a América Latina, o governo de Donald Trump incluiu, em junho de 2026, as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista de “organizações terroristas estrangeiras”. A medida, que atende aos interesses da extrema-direita e desrespeita a soberania nacional, indica a criação de condições jurídicas para a atuação da CIA e de outras agências de inteligência dos EUA na segurança pública brasileira. A conjunção dessa medida revela uma mesma essência de disposição do imperialismo estadunidense em usar qualquer pretexto, como o combate ao narcotráfico e as regras do comércio internacional, para submeter a região aos seus desígnios geopolíticos e econômicos.
O argumento é que as facções seriam responsáveis por ataques violentos e pelo tráfico de drogas internacional. A designação, que entrou em vigor no dia 5 de junho, permite o congelamento de ativos e a imposição de sanções criminais e migratórias. No entanto, a medida é uma farsa jurídica e política, pois não há qualquer indício de que as facções pratiquem atos de terrorismo conforme a definição legal brasileira e internacional, uma vez que agem por interesses econômicos e não por motivação ideológica.
O precedente de intervenção pela América Latina
Trump utiliza esta cartada de combate ao narcotráfico em outras regiões da América Latina. O caso mais emblemático é a Venezuela, onde a classificação da facção Tren de Aragua, como “terrorista”, serviu de pretexto para ingerência política, sanções criminosas e, por fim, a ameaça explícita de intervenção militar direta com a prisão de Maduro. O roteiro é sempre o mesmo: demonizar forças políticas ou sociais internas, rotulá-las como terroristas e, em seguida, justificar ações unilaterais que violam brutalmente a soberania dos povos.
Com o Brasil, o risco real é de que a classificação seja usada para enviar “assessores” disfarçados, agentes da CIA e recursos de inteligência sob o pretexto do “combate ao terrorismo global”. A partir de agora, a Polícia Federal e as polícias estaduais podem ser “orientadas” por agentes estrangeiros, com o perigo iminente de que a segurança pública brasileira se torne um apêndice da agenda geopolítica de Washington.
O combate à política entreguista
Apesar do grave risco de ingerência, uma invasão militar direta ao Brasil é improvável, não por virtude diplomática ou resistência nacional, mas por um motivo muito mais obsceno: o governo Lula entrega de bandeja os minérios estratégicos brasileiros às empresas estadunidenses. Desde o início do seu mandato, o governo petista tem aprofundado a subserviência ao capital imperialista, autorizando a exploração de nióbio, terras raras, minério de ferro e potássio por mineradoras controladas pelo capital dos EUA.
O imperialismo não precisa de tanques para saquear o Brasil quando as próprias elites locais abrem as portas do baú. Em troca de migalhas tributárias e promessas de empregos precarizados, o governo brasileiro permite que os EUA tenham acesso garantido aos recursos que alimentam sua indústria bélica e tecnológica.
A política externa do governo Lula oscila entre discursos vagos de “soberania nacional” e práticas de subserviência colonial. Enquanto faz afirmações genéricas contra o tarifaço, Lula silencia diante da classificação terrorista que coloca a segurança pública sob suspeita de ingerência estrangeira.
Todavia, não há soberania possível enquanto o Estado brasileiro se submeter à lógica do capital estrangeiro. Lula não é um adversário do imperialismo; é seu sócio menor, que administra a dependência com roupagem de cordialidade. A luta contra a ofensiva imperialista exige denunciar radicalmente o entreguismo mineral e construir uma política soberana de autodeterminação dos povos, nacionalização das empresas estratégicas e preparar a América Latina para enfrentar o imperialismo nas ruas, assim como tem feito o povo boliviano, há mais de um mês, com a maior rebelião popular da última década.
O combate ao imperialismo deve ser nas ruas!
Nesse contexto, a análise socialista nos convoca a ir além das denúncias. É preciso compreender que a luta contra a designação terrorista e as tarifas americanas é uma luta pela soberania nacional. Sim, mas ela não pode se limitar a isso. O único caminho para a América Latina romper definitivamente com essa engrenagem é a ruptura com o sistema capitalista e a construção de uma alternativa socialista continental. Enquanto os governos da região se submeterem à lógica do mercado e à dependência estrutural do dólar, estarão sempre sujeitos à chantagem e à violência do imperialismo. A defesa intransigente da soberania deve caminhar junto com o combate à exploração de classe interna e a integração solidária entre os povos latino-americanos. Somente com a unidade das trabalhadoras e dos trabalhadores, de norte a sul do continente, será possível enterrar de uma vez por todas a Doutrina Monroe e construir uma pátria grande, livre, soberana e socialista.



