Os Estados Unidos já não dominam o mundo como há algumas décadas e passam por um processo tratado por muitos como uma tendência de declínio de sua hegemonia. E se expressa na economia com a ascensão da China (realizando acordos comerciais com países antes sob influência estadunidense), a resistência que enfrentam nas relações políticas e uma diplomacia incapaz de “atrair e persuadir, em vez de coagir” e indústria cultural já não conseguem mais “produzir formas coletivas de sonhar”. Internamente, entre vários, citamos o fim do “sonho americano”.
Como ainda são a principal potência capitalista e detém muito poder – sobretudo a militar- para valer esse poder, necessitam, cada vez mais, apelar ao uso da força.
Como produto dessa crise, os Estados Unidos passam por mudanças internas profundas, desde a desindustrialização (menos investimento na produção, empresas produzindo em outros países, etc.) até o agravamento da crise social, afetando milhões de trabalhadores em várias áreas como saúde, emprego, moradia, etc.
A ausência de um movimento social capaz de se colocar como alternativa abriu caminho para a ascensão de Trump, eleito prometendo resolver exatamente esses problemas. E qualquer solução passa por ampliar suas relações econômicas e retomar a influência (consensual ou coercitiva) sobre algumas áreas do mundo. E América Latina é um ponto chave para Trump.
Quando o “diálogo” e “consenso” falham, o que resta é intervenção
O agravamento da crise estrutural do capital (e suas consequências) empurra os países para disputar o mercado mundial, aumentando a concorrência mundial. Essa disputa chegou na América Latina e países como a China e a Rússia ganharam influência e espaço que antes era dos Estados Unidos. É nesse contexto que podemos entender a política de Trump para a América Latina.
Os Estados Unidos sempre consideraram a América Latina como o seu “quintal”, um território controlado seja pelo consenso, seja pela coerção. E consenso para eles não é acordo entre dois países, mas “concordar com eles”. A frase “falar suave com um grande porrete na mão te levará longe” de Theodore Roosevelt (presidente 1901-1909) demonstra bem o modus operandi estadunidense.
A construção desse “consenso” sempre foi prioritário porque não exige grandes mobilizações militares (e financeiras) e se constrói uma legitimidade que é importante na dominação. O “consenso de Washington” é um exemplo desse “diálogo” e foi fundamental para a lucratividade do capital, sem o desgaste de uma ação militar.
Quando esse “diálogo” não é produtivo, entra em cena as ações militares. As ocupações de Cuba (1898-1902/1906-1909/1917-1922), do Haiti (1915-1932) e Nicarágua (1912-1933); além disso, os 23 golpes (ou tentativas) para derrubar governos eleitos entre 1949 e 1989 (Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, entre outros) é o jeito de tratar a região “como seu o quintal”.
A justificava, longe de ser a realidade, era a defesa de um ‘mundo livre’, da liberdade e da democracia e sempre contra um inimigo imaginário, como a “ameaça comunista”.
Trump retoma o intervencionismo
A partir da derrubada das ditaduras na década de 1980 e da invasão ao Panamá em 1989, os Estados Unidos priorizaram o “consenso” para imporem seus interesses na região, como a implementação do neoliberalismo, como dito acima. A partir dos anos 2000, sobretudo a partir da eleição de governos da “esquerda institucional” e da presença chinesa, começam a perder influência.
Com a eleição de Trump, o imperialismo retoma a orientação intervencionista para a América Latina, adotando uma política mais agressiva contra a região, inclusive militar, como a invasão da Venezuela e as ameaças à Cuba. A pressão contra o Panamá para romper com empresas chinesas controladoras do Canal do Panamá, crucial para as exportações de empresas estadunidenses. Foi acordado com o Paraguai o acesso de tropas militares sem qualquer controle por parte do Estado paraguaio.
Também é parte dessa ofensiva as medidas econômicas, como o aumento das tarifas contra produtos mexicanos e brasileiros. Como a região é rica em minérios fundamentais para as atuais tecnologias (lítios, terras raras, Nióbio e Cobre), a apropriação desses recursos minerais é mais um elemento de pressão e ameaças, principalmente pela forte presença da China nesse setor.
Para isso, ter governos alinhados é decisivo. Em Honduras, com ingerência externa e fraudes, o candidato apoiado por Trump foi eleito por pouca margem de votos. Candidatos da extrema-direita do Chile, Argentina, Bolívia, Peru, Paraguai e Equador e apoiados por Trump também foram eleitos e são base para os planos de Trump.
Diante de tudo isso, a construção de um movimento anti-imperialista e anticapitalista é fundamental para derrotar as pretensões de Trump.




