IDENTITARISMO E INDÚSTRIA CULTURAL: FRONTEIRA TÊNUE ENTRE DISCURSO E PRÁXIS

Há alguns dias, acompanhamos notícias sobre a decisão de Chico Buarque de parar de cantar a música Com Açúcar, Com Afeto. Esta, composta em 1967, narra a rotina de uma mulher resignada na sua relação com o marido boêmio. Houve especulações sobre feministas que teriam recentemente atacado os versos considerados machistas, mas o artista declarou que parou de cantá-la em shows há décadas.

A mídia burguesa explorou o assunto com feministas apoiando a censura à músicas ou fazendo uma ressalva à canção citada por estar descrevendo uma mulher que ainda existe em nossos tempos. Obras de arte refletem sua época. Representam as bandeiras do grupo social que as elabora, são ideológicas. A morte de ideologias acontece lentamente com a ascensão de novas formas de ver o mundo.

Desse modo, grande parte das canções que foram citadas como “datadas” nas matérias que trataram da polêmica já nem são muito tocadas pelos seus intérpretes. É o caso de Você não Passa de uma Mulher, gravada por Martinho da Vila em 1975 para a novela Pecado Capital e a música Fita Amarela, gravada por Zeca Pagodinho e composta por ele e outros compositores, em 1997. Pouco depois do debate em torno da obra de Chico Buarque, Martinho avisou que nunca gostou de sua música e só cantou por ocasião do lançamento, já a canção de Zeca Pagodinho, para gravar em homenagem ao autor, Martinho da Vila fez questão de mudar a letra em uma apresentação.

É certo que as obras deixam de cumprir o papel que tiveram. Mas a censura prévia abre caminho para uma nova sociedade?

A ARTE FAZ PARTE DO MOTOR DA HISTÓRIA

As marchinhas de carnaval de Lamartine Babo nos anos trinta se consolidaram com a famosíssima O teu Cabelo não Nega, que todos conhecem, mas ninguém canta mais impunemente. Quando os versos: “mas como a cor não pega mulata/ mulata eu quero o teu amor” estouraram, Getúlio Vargas havia tomado o poder dando início ao período liberal da política brasileira e Gilberto Freyre publicou o livro Casa Grande & Senzala que, apesar de rechaçar as teorias racistas de branqueamento da população, trazia a ideologia da democracia racial e apagamento da violência a que os descendentes de negros escravizados estavam expostos no Capitalismo.

Dentre as músicas que são citadas nas redes sociais como letras que hoje não seriam lançadas está Esporrei na Manivela, gravada em 1995 pela banda de rock Raimundos: “No coletivo o que manda é a lei do pau/ quem tem esfrega/ quem não tem se dá mal”. É uma franca apologia ao estupro. Ciúme, sucesso do Ultraje a Rigor em 1985, também é alvo de críticas porque o narrador não consegue ser “moderninho” e deixar a namorada ter outras amizades. O Guns’n Roses, em 1988, gravou One in a Milion, uma música xenófoba e homofóbica. Os Beatles também ameaçaram sua amada de morte em mais de uma canção, e até Gilberto Gil, em 1979, gravou Minha Nega na Janela com versos que hoje são explicitamente racistas: “Êta nega, tu é feia/ parece uma macaquinha/ olhei pra ela e disse/ vá já lá por a cozinha/ dei um murro nela”.

A INDÚSTRIA CULTURAL NÃO DÁ ESPAÇO PARA A ARTE CRÍTICA

Aprendemos com Marx que as ideias da classe dominante são as ideias dominantes em sua época. Muitas dessas músicas sequer são conhecidas do grande público ou, quando são, há restrições. As censuras impostas pelos movimentos identitários não são um avanço definitivo na vida social.

O racismo permanece. Hoje vemos pessoas gravando vídeos chamando negros de macacos como na música de Gilberto Gil. Não cantar músicas com teor opressor é um resultado das lutas.

A mulher de Com Açúcar, com Afeto não representa mais a pequena burguesa, porém ainda é espelho de muitas nas comunidades e periferias. Os crimes de feminicídio seguem numerosos no país.  Deixar de ouvir essa e outras músicas, ainda que seu autor não a cante mais, é um silenciamento e em nada contribui para o destino maior da classe trabalhadora: sua emancipação pela revolução socialista.  É também o deslocamento da própria história de um artista como Chico Buarque que sempre se colocou ao lado dos oprimidos pelo Sistema.

Uma letra de Martinho da Vila, Mulheres, foi ressignificada e ficou bem interessante. A original diz: procurei em todas as mulheres a felicidade/ mas eu não encontrei e fiquei na saudade. Na letra, de 1995, o narrador diz que já se envolveu com mulheres de todas as cores, acanhadas, atrevidas, carentes, casadas. Em 2018, ela ganhou uma versão nas vozes de Doralyce e Silvia Duffrayer citando Dandara, Elza Soares, Anastácia e Chica da Silva:

(…) ninguém está confusa, não te perguntei nada (…) sou mulher, sou dona do meu corpo e da minha vontade. Estes versos, um belo panfleto feminista, por si só, não levará a uma revolução.

Já o caminho que os identitários buscam é justamente esse, apresentar as pautas e inseri-las dentro do sistema, eles negociam com a Indústria Cultural que é conservadora e lucra com as Opressões, sem proporcionar mudanças estruturais de fato.

É importante que as músicas antigas não sejam reproduzidas ou sejam ressignificadas, bem como as músicas atuais sejam mais críticas tanto a opressões quanto ao sistema que a realiza, como uma propaganda crítica à essa realidade que vivemos.

A mulher irá além de cantar “eu sou tudo que um dia eu sonhei pra mim”, quando vivermos em uma sociedade igualitária e pudermos enxergar as músicas machistas, racistas e LGBTfóbicas como parte de uma História vencida, sem cancelar os artistas que a descreveram em suas aspirações por um mundo mais livre, como Chico Buarque.