A longa Copa de 2026, para os milionários, acabou no mês de julho e não conseguiu deixar de ser um espelho dos aspectos centrais da sociedade global contemporânea: foi acompanhada por incêndios florestais, xenofobia, racismo, ou seja, um retrato do mundo de hoje.
Observar muito além dos gramados, significa entender que o mundo segue em uma polarização intensa e em um clima de contradições exacerbadas entre os Estados Nacionais, mas também nos alicerces da estrutura capitalista da sociedade global.
Nos EUA, Donald Trump ampliou o unilateralismo e as ações militares. Comparado ao seu primeiro governo, incluiu a permanente escalada de tensões desde o sequestro de Maduro na Venezuela, algo que marcou uma intervenção militar direta na América do Sul, e o acirramento de conflitos no Oriente Médio com destaque ao Irã, Líbano e o genocídio na Palestina.
O conflito ao redor do Estreito de Ormuz e sobre a soberania iraniana oscilam entre um cessar-fogo falacioso e novas investidas militares, bombardeios e as ameaças imperialistas. Trump não aceita, ao fim e ao cabo, não ter alcançado (ainda) uma vitória plena na região.
No aspecto econômico esse governo se vangloria de investir os recursos dos tarifaços internamente, cerca de 19 trilhões de dólares, o que possibilitaria, conforme afirma um período de pleno emprego na sociedade estadunidense.
Este é o cenário da narrativa trumpista, mas são percebidas importantes resistências às políticas implementadas pelo líder imperialista. O unilateralismo e o intervencionismo, sob o lema “Make America Great Again”, combinam práticas agressivas e um protecionismo econômico reacionário, pois protegem e remuneram parcelas do grande capital internacional -especificamente estadunidense- e não os interesses de países periféricos do sistema. Ao mesmo tempo, a expansão da extrema-direita na América do Sul é concreta.
E a partir de recentes vitórias eleitorais na Colômbia e Peru assumiu uma hegemonia jamais vista no continente. Isso não significa, assim tem ocorrido, que mudanças estruturais e permanentes tenham ocorrido nos regimes políticos em cada país, mas certamente as gestões alinhadas à extrema-direita têm em comum os objetivos de retirar direitos dos trabalhadores e oprimidos, encarcerar e/ou fuzilar os mais pobres, acirrar a guerra às drogas e batalhar pela ampliação dos lucros dos grandes capitalistas. De qualquer forma, o obscurantismo avança na região.
A polarização e instabilidade globais também atingem o continente africano, historicamente espoliado e fragmentado pelas políticas dos países colonialistas e imperialistas. Os maiores conflitos em andamento no continente concentram-se no Sudão e na República Democrática do Congo e têm como pano de fundo as disputas políticas e o controle de recursos minerais, um tema crucial e de interesse global.
No Sudão, o conflito iniciado em 2023 – entre as Forças Armadas e o grupo paramilitar ‘Forças de Apoio Rápido’- é considerado pela ONU como a maior crise humanitária na atualidade. Já são dezenas de milhares de mortos, além do deslocamento forçado de mais de 14 milhões de pessoas, drama humanitário gravíssimo para africanos, palestinos, dentre outros povos.
As possibilidades das lutas
Quando vivemos polarizações políticas e sociais, mesmo em situações defensivas ou reacionárias, um dos aspectos deste contexto é o surgimento de possibilidades reais de lutas dos trabalhadores e oprimidos. Exemplos não nos faltam: citamos a mobilização popular estadunidense “No Kings” e, em especial, o recente levante boliviano.
A primeira (traduzida como “Sem Reis”) foi marcada por uma onda de manifestações em várias cidades contra o governo Trump, estima-se que ocorreram cerca de 3.300 atos em todos os 50 estados norte-americanos de forma simultânea. Milhões de pessoas criticaram as medidas autoritárias, as políticas migratórias, os abusos da polícia trumpista ICE, os cortes de verbas na Educação e o envolvimento na guerra no Irã.(1)
Na Bolívia, amplos protestos ocorreram entre abril e junho e foram mobilizações agudas, ocupação de estradas, greves e paralisações. Após importante impasse, houve um “acordo” entre o governo Rodrigo Paz, de extrema-direita, e a Central Operária Boliviana (COB), o que não impediu a decretação de ‘estado de emergência’.
Neste cenário repressivo ocorreu a desobstrução das rodovias e o reabastecimento das cidades voltou a normalidade. Paz se comprometeu genericamente a não privatizar empresas estatais e “não criminalizar os protestos”. Apesar da retórica, o estado de emergência permitiu a atuação conjunta das Forças Armadas e da Polícia para reprimir aqueles que não aderiram imediatamente ao acordo entre governo e COB.
Diante de tal pressão, os movimentos sociais -em boa medida ligados ao ex-presidente da Bolívia Evo Morales -anunciaram uma suspensão temporária dos bloqueios que ainda persistiam. Tal onda de mobilizações, situação potencialmente revolucionária, foi motivada pela grave crise econômica que o país enfrenta, agravada pelas medidas ultraliberais do governo Paz.
Embora a situação tenha aparentemente se estabilizado, nada garante que a polarização boliviana tenha se esgotado. A história de resistência indígena, camponesa, operária e popular deste país permite imaginar exatamente o contrário disso.
O elemento subjetivo, a polarização e a alternativa socialista
Um dos limites importantes que temos apontado nas possibilidades e lutas e transformações ‘pela esquerda’ está no elemento subjetivo, ou seja, a consciência de classe, a vontade política organizada e as estruturas organizativas que surgem daí.
A alternativa socialista pela qual dedicamos nossa militância pode surgir e depende, em boa medida, da superação e qualificação do elemento subjetivo. Dito de outra forma, precisamos de organizações, lideranças e da força das massas da classe trabalhadora que queiram ir além, até o limite das possibilidades políticas e sociais. A indignação frequente e cotidiana –muitas vezes utilizada pela extrema-direita- pode se levantar pela esquerda, numa perspectiva socialista e emancipatória a partir evidentemente das pautas sentidas no dia a dia, na luta pelo pão, por trabalho, estudo digno e contra as opressões.
Lutamos por muitas questões, mas a estratégia revolucionária básica é contribuir para que a classe trabalhadora e os oprimidos compreendam suas posições na atual pirâmide social como classe (“consciência para si”, para os marxistas) e, assim, se organizem politicamente para superar as velhas organizações, a ‘velha forma de entender a vida’ e as estruturas tradicionais. Com isso, por exemplo, a COB não faria o acordo nefasto que retardou e paralisou a luta boliviana.
Sem esse forte elemento subjetivo por uma luta coerente e de classe, as crises sistêmicas do capitalismo seguem ocorrendo, bem como importantes revoltas populares, mas tendem a ser limitadas e se esgotarem ‘no meio do caminho’. A luta pelo socialismo nos traz o grande desafio de não estacionar nem congelar as mobilizações.
As eleições e a unidade anticapitalista no Brasil
O processo eleitoral de 2026 poderia ser uma oportunidade para a esquerda anticapitalista se colocar como uma alternativa real para a classe trabalhadora. Essa é a nossa batalha e militaremos por ela nos próximos meses, mas, lamentavelmente, os partidos legalizados (PSTU, UP e PCB) não toparam conformar um bloco anticapitalista, algo que defendemos até as convenções se encerrarem em agosto.
Seguiremos lutando, junto com os/as camaradas do MFSR (Movimento pela Frente Socialista Revolucionária) por uma maior aproximação e articulação entre os grupos socialistas e anticapitalistas visando a unidade, a construção das lutas e o enfrentamento a este limite subjetivo histórico.
Nas eleições de outubro, vamos indicar o voto nas candidaturas anticapitalistas (UP, PCB ou PSTU) de ‘cabo a rabo’, bem como votar em lutadores/as com perfis combativos e ligados às lutas que descrevemos aqui. Nenhum de nós é suficiente sozinho, mesmo as organizações com dezenas de militantes não se bastam sozinhas e, também por isso, militamos pela maior unidade possível na luta da esquerda anticapitalista e revolucionária.
Convidamos você a juntar-se a essa perspectiva!
(1) O ICE (Immigration and Customs Enforcement) é o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos criado em 2003 pelo governo Bush. É responsável por aplicar as leis de imigração, incluindo a detenção e deportação de “imigrantes indocumentados”. No governo Trump, foi ampliado para enfrentar a imigração, uma das pautas centrais do trumpismo e o efetivo da corporação e o seu orçamento anual foram dobrados. O ‘modus operandi’ inclui ações agressivos, operações em locais públicos, prisões em residências sem mandados judiciais e uma longa lista de abusos. Vários casos de violência, incluindo mortes de imigrantes em abordagens além de “erros e excessos”, desencadearam protestos no país.




